domingo, 27 de abril de 2014

NARCISA FLOR DE POETISA DAS NÉVOAS ABOLICIONISTA E REPUBLICANA
por Julio Cesar Fidelis Soares[1]
Falar de Narcisa Amália é sempre muito importante para lembrar-nos desta mulher que foi um marco para literatura poética na segunda metade do século XIX na região do Vale do Paraíba Flumimense, mais especificamente em Resende e do ela e sua obra representa para literatura poética e da prosa no ambiente regional, nacional e internacional.
Além de poetisa foi uma das primeiras jornalistas do Brasil[i], Narcisa Amália nasceu em São João da Barra na Província do Rio de Janeiro em 1852.  Em 1863 aos 11 anos veio para Resende onde seu pai, Joaquim Jacome de Oliveira Campos, fez residência e fundou quando chegou,  dois colégios – um para meninos, dirigido por ele  e outro para meninas, dirigido por sua mulher Narcisa Ignácia Pereira de Mendonça, que era professora.  Mais tarde Narcisa Amália teria aí seu primeiro emprego.  A contribuição de seus pais para a vida cultural da cidade  foi tão importante que D.Pedro II resolveu agraciar o Professor Jácome de Campos com a comenda Ordem de Cristo, quando de sua visita a Resende, em 1874.
                               Narcisa foi criada num ambiente liberal, o que marcaria toda sua obra – tanto na poesia quanto na prosa, destacadamente nos seus artigos na imprensa. Criticava  violentamente em seus artigos  a escravidão que ainda imperava no Brasil , escrevendo também a favor da instauração da República.  Por suas posições intrépidas e arrojadas, inclusive denunciando a situação de inferioridade em que vivia a mulher brasileira, mostrando-se pioneira também no feminismo, Narcisa foi alvo de críticas da sociedade resendense conservadora, católica, monarquista, escravocrata e machista. Sua importância como articulista feminina hoje se reflete nas referências a ela como no livro da autora Mary de Del Priore  Castelo de Papel que a coloca entre as três mulheres mais importante na imprensa feminina que bradava contra a escravidão, junto de Maria Firmina dos Reis, Chiquinha Gonzaga e naturalmente ela Narcisa Amalia  Campos.
Publicou artigos como “A emancipação da mulher” e “A mulher no século XX” obras muito a frente do tempo para o entendimento do público da época. Quem nos descreve a figura física de Narcisa foi o historiador Resendense Arthur de Almeida Torre que nos relata:
“Tinha um corpo delicado e cintura fina, perfil clássico de andaluza,olhos grandes e expressivos, que pareciam sempre mergulhados em meditação ;lábios ligeiramente carnudos e bem torneados,onde,no dizer do poeta , um beijo flutuava eternamente; cabelos fartos,que rolavam em ondas sobre  os ombros de linhas suaves como um vistoso manto de topázio;mãos cetinosas  e espirituais,tão pequenas, tão claras e tão delicadas,que igual,no mármore,Fídias por certo não talhara...”[ii]



No ano de 1866 casa-se aos 14 anos com João Batista da Silveira, de família resendense, quatro anos mais velho que ela, mas o matrimônio durou apenas quatro anos, foi na verdade um fracasso e o marido a abandonou, deixando também a cidade de Resende.
Em Agosto de 1870 Narcisa começou a publicar no Jornal O Astro Resendense, na formatação de folhetim, capítulos da obra do escritor françês Gaston de Saporta[iii], denominada Reveu des Deux Mondes.  Tradução transformada em livro que deu projeção em nível nacional a nossa escritora.
Em 1872 estimulada pelo pai traduziu e publicou um folhetim no jornal Astro Resendense, tendo também colaborado em outras publicações como O Pirilampo, jornal literário que passou a ser integralmente redigido por ela com o pseudônimo Narandiba[iv] ( de origem tupi, significa laranjal). Entre 1870 e 1872 publica suas poesias em vários jornais do Rio e São Paulo. Em novembro de 1872 publicava seu livro de poesias – Nebulosas, pela mais  famosa editora da época, a  Garnier, com prefacio do poeta resendense  Ezequiel Freire[v] que, segundo alguns, teria sido seu amante,situação que ao nosso ver não achamos evidência nem registros que possa dar guarida a tal afirmação. Mais tarde ela faria o prefacio de seu  livro – Flores do Campo.
  A poesia de Narcisa , em Nebulosas,  foi recebida com aplausos pela crítica literária. João Oscar, um de seus biógrafos, escreveu: “...nos mais diversos setores da cultura nacional , o assunto de repente se tornou um só: a bela e talentosa Narcisa Amália e sua obra.”  Pessanha Póvoa fez do prefácio de Nebulosas e em um dos trechos disse:
“Eu peço que Julguem o livro de N. Amália,livro que ilumina a grande noite da poesia brasileira.Quando houver um Conselho de Estado ou um Senado Literário ,Narcisa Amália terá as honras de Princesa das Letras.”
Em umas das suas tantas visita a Resende houve uma grande surpresa o Imperador Dom Pedro II demostrou desejo de ir cumprimentar a poetisa, cuja obra já conhecia e admirava. Segundo conta-se que um dos munícipes que cortejava o Imperador,o questionou mui respeitosamente quanto ao desejo S.M., disse-lhe que Narcisa Amália residia numa padaria,de cujo proprietário era esposa. O Imperador retrucou sem se importar : - Lá por isto,não ;não dilatemos a visita,vamos sem perda de tempo,porque enfim eu vou visitar a sublime padeira,por estar ansioso por lhe provar ... do pão espiritual. E o cortejo se fez com Imperador a frente desfilando pelas ruas de Resende até a Rua da Misericórdia encontra Narcisa[vi].
Fagundes Varela dedica a ela a poesia cujo título  deu “Tributo de Admiração- O Gênio e a Beleza”, José do Patrocínio[vii] dedica a poesia “ Á Narcisa Amália”, já Raimundo Correia dedica-lhe “Poema da Noite”, Machado de Assis em sua coluna de crônicas com título “A nova geração”,na Revista Brasileira de 1879: “D.Narcisa Amália,essa jovem e bela poetisa,que há alguns anos aguçou nossa curiosidade com um livro de versos e recolheu-se depois à turris erbunea da vida domestica.” em fim todos fizeram elogios de peso à poetisa. Regionalmente destacamos a crítica feita em 9 de fevereiro de 1873,publicada no jornal Pindamonhangabense que assim faz seu comentário “ Nebulosas é o título do livro de poesias que vem publicar a nossa distinta e inteligente colaboradora, a exma.Srª Narcisa Amália. É já por demais conhecido dos nossos leitores e,sobretudo,das leitoras,o nome desta ilustre poetisa,que faz honra e glória ao sexo a que pertence...”, em Resende o poeta e abolicionista Otaviano Hudson escreve no Astro Resendense em 23 de março de 1873, “ A mulher que se libra nas esferas do ideal,tem na fronte resplendente a auréola gloriosa que o Criador concede aos gênios. Narcisa Amália faz parte dessa falange.” Internacionalmente recebe críticas oriundas de Portugal de Rangel de Lima publicada na Revista Artes e Letras de Lisboa em 1873,no mesmo ano Julio Cesar Machado faz elogio no Diário Ilustrado de Lisboa, o crítico literário Luciano Cordeiro em sua obra Estros e Palcos em 1874 faz a menção a Narcisa do qual extraímos o seguinte trecho “ Longa vai já esta notícia de um livro e uma poetisa incontestávelmente notável. Talento vigoroso,brilhante,flexível , afirma-se por maneira que não pode contestar-lhe um dos primeiros lugares na literatura de cá(Portugal)”. Já em 1878 a escritora Portuguesa Guiomar Torrezão no Almanaque das Senhoras, editado em Lisboa faz-lhe extenso elogios.
                               Em 1880, aos 28 anos, ela casou-se , pela segunda vez, com Francisco Cleto da Rocha, proprietário da Padaria das Familias, no bairro do  Lavapés. Novamente experiência amorosa malograda que durou apenas sete anos.   O sucesso de Narcisa passou a incomodar o marido que, depois de separado, passou a difamar Narcisa declarando que seus versos não eram de sua autoria, mas escritos por poetas com quem teria tido casos de amor[viii]. O escritor Múcio Teixeira[ix] fez côro à campanha contra Narcisa declarando que Nebulosas tinha sido escrito por um homem com pseudônimo de mulher. Desgostosa, a poetisa desabafa num de seus versos: ”Meu nome atirei às ventanias....” Em outra ocasião, indignada com as críticas recebidas por não se dedicar “aos cestos de costura” , como diziam na época, escreve:” Quando tento liberar-me no espaço/ As rajadas em tétrico abraço/ Me arremessam a frase – Mulher!”
Desiludida com o clima que se formara à sua volta decide mudar-se para Rio de Janeiro onde passa, a partir de 1889, a lecionar numa escola pública, indo morar em São Cristóvão. Narcisa assistiria à proclamação da República, tema de tantos de seus artigos, mas já não tinha mais ânimo para a vida política. Afastou-se totalmente do meio literário e deixou de escrever, abandonando a poesia. Passou a morar com um casal de amigos no Rio Comprido onde, a 24 de julho de 1924 morria, paralítica e cega. A cidade de Resende prestou-lhe uma homenagem dando seu nome a uma das ruas do bairro Manejo.  Pouco mais de vinte anos depois, em 1948, o nome de Narcisa Amália era resgatado com a publicação de uma biografia sua feita por Antonio Simões dos Reis que buscou, inclusive, o testemunho do jornalista Alfredo Sodré[x] que lhe contou ter mais de uma vez visto Narcisa escrevendo seus versos. E ninguém mais duvidou da autoria de Nebulosas  livro marcante Narcisa Amália que do ponto de vista literário foi analisado recentemente na obra Chistina Ramalho - Um Espelho Para Narcisa: Reflexos de Uma Voz Romântica,  livro este que tem o mérito, entre outros, de resgatar através de rigoroso estudo crítico da autora , a obra de Narcisa como grande poetisa que foi e expoente da literatura nacional e do Vale do Paraíba no século XIX.
Referências Bibliográficas:
ASSIS, Machado de. "A nova geração". In: Crítica Literária. Rio de Janeiro, 1938.
BOPP, Itamar. Quatro personagens de Resende. Resende: [s. n.] 1985.
BROCA, Brito. Românticos, pré-românticos, ultra-românticos. São Paulo: Polis; Brasília: INL, 1979.
CESARIO, Doria. "As intelectuais brasileiras". A Cruzada. Niterói, 1 fev. 1908.
COSTA, Afonso. Poetas de outro sexo. Rio de Janeiro: [s.n.] 1930.
DANTAS, Mercedes. "A precursora do feminismo no Brasil". Revista da Semana. Rio de Janeiro, 30 mar. 1929.
DEL Priore,Mary, O Castelo de Papel:uma historia de Isabel de Bragança,princesa Imperial do Brasil,e Gastão de Orleans,Conde d´Eu. Rio de Janeiro – Rocco,2013.
FALCÃO, Rubens. Antologia de poetas fluminenses. Rio de Janeiro: Record, 1968.
FLEUSS, Max. Férias. Anthologia de actuaes escriptores brazileiros. Lisboa: Livraria Central de Gomes de Carvalho editor, 1902, p. 186 e 491.
FREIRE, Ezequiel. "Homenagem". Astro Resendense. Resende, 2 fev. 1873.
_____. Livro posthumo. São Paulo: Weisflag Irmãos, 1910, p. 75.
_____. "Narcisa Amália". Diário Mercantil. São Paulo, 16 maio 1886.
_____. "Poesia brasileira". Diário Mercantil. São Paulo, 1 jan. 1887.
FREIRE, Moniz. Itinerário da viagem de Sua Majestade Imperial à Província do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Typ. Austral, 1847.
JARDIM, Renato. Reminiscências. Rio de Janeiro: [s. n.] 1946.
LINS, Benjamim Franklin de Albuquerque. "Nebulosas de Narcisa Amália". Tymburitá. Resende, 29 ago. 1909.
LYGIA [ Georgina Macedo] . "Dois nomes". Imprensa Resendense. Resende, 13 maio 1908.
MAIA, João de A. C. Notícias históricas e estatísticas do Município de Resende. Rio de Janeiro: [s. n.] 1891.
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OSCAR, João. Apontamentos para a história de São João da Barra. Teresópolis: Mini-Gráfica, 1977.
­­­­­­______. E os pássaros voaram. Teresópolis: Mini-Gráfica, 1973.
______. Introdução à história literária de São João da Barra. Teresópolis: Mini-Gráfica, 1972.
______. Narcisa Amália. Vida e poesia. Campos: Lar Cristão, 1994.
PAIXÃO, Múcio da. Movimento literário em Campos. Rio de Janeiro: [s. n.] 1924.
PAIXÃO, Sylvia P. A fala a menos. A repressão do desejo na poesia feminina. Rio de Janeiro: Numen, 1991.
PÓVOA, Pessanha. "Prefácio". In: AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. Rio de Janeiro: Garnier, 1872, p. V-XXI.
PRISCO, Francisco. "Narcisa Amália". In: Mundo literário. Rio de Janeiro: 1923.
Ramalho,Christina Um Espelho Para Narcisa: Reflexos de Uma Voz Romantica 1ªed 1999  Ed. Elo-Rio de Janeiro 185pp Formato 14x21cm Isbn 85-85084-15-4
REIS, Antônio Simões dos. Narcisa Amália. Rio de Janeiro: Simões, 1949.
ROMERO, Sílvio. "A alegria e a tristeza na literatura". Estudos da literatura contemporânea. Rio de Janeiro: [s. n.] 1885.
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SILVA, Eliseu G. da. "Narcisa Amália (poetisa)". Correio do Brasil. Rio de Janeiro, 28 mar. 1872.
SILVEIRA, Tasso da. "As mulheres poetisas do Brasil". Terra do Sol. Rio de Janeiro, n. 5, maio 1924.
SINCERO, João. "As nossas escritoras". Correio Literário. Rio de Janeiro, set. 1890.
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TEIXEIRA, Múcio. "Memórias dignas de memória". A Imprensa, Rio de Janeiro, 1 mar. 1912.
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VEIGA, Luiz F. da. "Narcisa Amália". Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v. 45, p. 1, 1892.
VIDAL, Barros. Precursoras brasileiras. Rio de Janeiro: A Noite, 1952.
XAVIER, Francisco C. Poetas redivivos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1969.
VIEIRA, Waldo. Antologia dos imortais. Rio de Janeiro: FEB, 1983.
Fontes Telematizadas:
Biblioteca Nacional: Manuscrito - Amália, Narcisa, 1852-1924 Título-Confissão Ano 1889 Assunto Poesia brasileira http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_manuscritos/literatura/mss_I_07_10_017.pdf
Biblioteca Nacional: Manuscrito Amália, Narcisa, 1852-1924 Título-Fatalidade Ano 1876 Assunto Poesia brasileira.
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_manuscritos/literatura/mss_I_07_10_018.pdf


[1] Mestre em História Social, Docente do Centro Universitário Geraldo Di Biasi,Volta Redonda e Barra do Piraí,das Faculdades,docente da FAETEC-CETEP –RESENDE-RJ. Vice-presidente do Instituto de Estudo Vale Paraibanos,Vice-Presidente da Academia Resendense de História, acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.



[i] Segundo estudos de João Oscar fundamentados nas opiniões de Arthur A.Torres,Marcello e Cybele de Ipanema in Imprensa Fluminense,Ensaios e trajetos,Rios de Janeiro:Inst.de Comunicação Ipanema,1984.
[ii] Athur Almeida Torres in Oscar,João.op.cit p.32
[iii] Louis Charles Joseph Gaston de Saporta, nascido em Saint-Zacharie (Var) 28 de julho de 1823 e morreu em Aix-en-Provence, 26 de janeiro de 1895, é um palaeobotanico francês. Ela mostra a transformação de espécies de plantas em diferentes épocas.
[iv] Lembramos que neste período do século XIX existia uma tendência dos literatos a buscar influências na cultura indígena brasileira como resgate segundo eles as raízes da terra.
[v] José Ezequiel Freire de Lima,nascido em Resende, na freguesia de Bom Jesus de Sant´Anna dos Tocos em 10 de abril de 1849. Faleceu  em Caçapava, província de São Paulo em 14 de novembro de 1891. Rezende, no século passado, foi um viveiro de espíritos de larga envergadura, tais como Raul Pompéia, Luiz Pistarini, Martins Junior e, dentre os mais ilustres Ezequiel Freire, que apesar de sua breve existência, exerceu grande influência no pensamento brasileiro de seu tempo e deixou profundamente assinalada a sua personalidade literária, social e política.
Foi um autêntico e espontâneo poeta e um escritor de aptidões multiformes. Mas tanto no verso, como na prosa, manifestou um profundo senso de nosso meio e intrépido amor às nossas realidades. Rompendo com a obra de imaginação do romantismo e do lirismo, que dominavam em seus dias, ele embebeu-se no seio de nossa terra e de nossa gente e colocou, no fundo de todas as suas produções, temas e motivos nacionalistas, integrando-se nos problemas ambientes, neles tomando posição definida e própria e combatendo pelos seus ideais através de suas crônicas, de seus contos, de seus artigos de doutrina, de sua crítica e de seus versos. O "Correio Paulistano" foi o órgão de imprensa que mais assiduamente e demoradamente exerceu a sua atividade, como o brilho de seu estilo fluente e escorreito. Escreveu também para a "Província de São Paulo", para o "Diário Popular", em São Paulo, e para a "Gazeta de Notícias" e outros grandes órgãos, no Rio.fonte: http://bndigital.bn.br/projetos/redememoria/bio-ezequielfreire.html
[vi] In A imprensa ,Juiz de Fora ,MG,1921 nºII;e Jornal do Commércio ,22.09.1948.
[vii] Interessante é que José do Patrocínio o “Tigre da Abolição”viveu em Resende quando teve uma farmácia a Rua Direita denominada “Pharmacia Independência” e portanto é provável que tenha conhecido pessoalmente e até convivido com Narcisa pois ambos lutavam pela abolição da escravatura.
[viii] A escritora Christina Ramalho em sua obra Um Espelho Para Narcisa: Reflexos de Uma Voz Romântica corrobora tal fato.
[ix] Múcio Scervola Lopes Teixeira nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e faleceu no Rio de Janeiro. Foi poeta, folclorista, jornalista,moralista, memorialista, etnógrafo, formado em medicina na Bélgica.Obra: Curso de Literatura Brasileira (1876), Cantos do Equador (Poesia, 1881), Pátria Selvagem (1884), Cancioneiro Cigano (1885), Festas Populares do Brasil (1886), Os Ciganos no Brasil (1886), Parnaso Brasileiro (antologia, 1885).
[x] Cel.Guarda Nacional Alfredo Sodré,Jornalista,articulista,membro da Loja Maçônica Lealdade e Brio que ajudou a fundar,foi editor do Almanack Resende, os cem anos da cidade.S[ed}1901.



sábado, 8 de março de 2014

A Imagem Padroeira de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova : aspectos históricos e sociais








Por: Julio Cesar Fidelis Soares

I - O Arraial de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre do desbravamento a ocupação.
Nos princípios do século XVII, João Siqueira Afonso, bandeirante de Taubaté, transpôs a Serra da Mantiqueira e ganhou as terras mineiras em busca de ouro.  Em 1702 descobre as Minas do Sumidouro, e continuando sua caminhada descobre as Minas de Guarapiranga em 1704 (cidade de Piranga). Seguindo o Rio Grande vai dar na Serra dos Papagaios (1706) fundando o arraial de Ayuruoca[1] .  Ayuruoca é uma alusão a um penhasco redondo e elevado aos ares, sobre um dos altos montes daquele lugar, em que os papagaios faziam moradas como já havíamos dito em nota. Em 1717 a coroa concede a Dom Brás Baltazar da Silveira uma sesmaria, e nela iniciaram-se as atividades agropecuárias.  Em 1726, a boa qualidade das terras e a previsível exaustão das catas e garimpos, levaram Manoel de Sá, também, a obter da Coroa Portuguesa uma sesmaria de meia-légua.
A partir daí que se voltam os interesses de exploração da  região do Vale do Médio Paraíba que passa ser notada com a presença de Garcia Rodrigues Paes Leme, um dos primeiros bandeirantes a se fixar aqui região, por volta de 1715, quando obteve de D. João V a doação da terra. Terras essas habitadas pelos índios Puris.          
  Em 1744 Simão da Cunha Gago, bandeirante paulista, conseguiu do Governador Luís de Mascarenhas, licença para formar uma expedição que abriu caminhos pela mata virgem, chegando numa planície rodeada de montes, local que batizou de Campo Alegre da Paraíba Nova. A escolha do local deveu-se a fortes motivos de ordem econômica e geográfica, que influenciariam o desenvolvimento da região. Zona de amplo horizonte, num local bem servido de água pelos afluentes do Paraíba, colocada estrategicamente a meio caminho das rotas que se cruzava em demanda do Rio, São Paulo e Minas Gerais, no período de extração aurífera.
O povoado que aos poucos se formou ficou conhecido como Campo Alegre da Paraíba Nova, transformando-se três anos depois em Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova. Em 29 de setembro de 1801 passou a ser vila alterando, inclusive seu nome para Resende em homenagem ao Conde de Resende. Sua titulação para cidade ocorreu em 1848, já devido a sua grande importância econômica dentro do Vale do Médio Paraíba eqüidistante dos principais centros econômicos do país Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Nestes campos encontramos o velho caminho dos Bandeirantes, que deu origem a cidades e vilas como Baependi, Bocaina de Minas e Aiuruoca. É de Aiuruoca que segundo narra Monsenhor Pizzaro de Araújo[2] que, o Coronel Simão da Cunha Gago mudou sua residência de São Paulo de Piratininga para o sítio da Lagoa de Ayruoca, na província de Minas Gerais.  Aí se ajustou com outros povoadores do sertão de sua vizinhança, para pesquisar ouro e diamantes, descendo em 1744 a Mantiqueira, logo avistando uma campina extensa e aprazível ali estabeleceram seus domicílios, tendo em sua companhia o Padre Filipe Teixeira Pinto. Em 12 de maio de 1747 obtiveram provisão para o uso de altar portátil, sob o amparo de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre[3]. E por Alvará Régio de 2 de janeiro de 1757 a Capela curada foi elevada a Matriz, com párocos próprios, tendo assim predicado de freguesia. 
Simão Cunha Gago é o primeiro a ver a bacia terciária de Resende, encaixada no vale arqueano do rio, a qual, por seus peculiares fatores geológicos apresenta um solo menos fértil para o adensamento florestal, desdobrando cerrados ou longos campos descobertos; origem do nome do arraial edificado pelo coronel Cunha Gago.  Arraial este que é responsável pela abertura de um novo caminho das Minas Gerais para o Rio de Janeiro, logo proibido por ordem régia.[4]
A Vila de Resende sempre teve ligado seu passado histórico ligado à presença da Igreja Católica na figura de seus Párocos. Figuras devotadas ao povo e aos santos ofícios mostraram com dedicação e sem descanso suas iniciativas às vezes até polêmicas, apresentando autoridade não só nos assuntos eclesiásticos, bem como nos políticos os de cunho social e geral da sociedade que arrebanhavam.
Desde os tempos de freguesia Resende teve párocos próprio sendo o primeiro Padre Felipe Teixeira Pinto, que erigira a primeira capela sob proteção de Nossa Senhora da Conceição, em 12 de maio de 1747. Por provisão eclesiástica de 12 de maio do Ordinário do Rio de Janeiro por ordem do Bispo Frei Antonio de Guadalupe.
O Padre Filipe foi cura da capela de Nossa Senhora do Rosário de Airuoca na província de Minas Gerais. A antiga Freguesia de Nossa Senhora da Conceição era muito extensa. Segundo Monsenhor Pizzaro de Araújo, a linha divisória da freguesia atingia ao norte pela freguesia de Airuoca, do Bispado de Mariana, pelo rio Paraúna, a leste a Paróquia de Sant’Anna do Piraí; ao sul pela Comarca de Sant’Anna da Areias do Bispado de São Paulo, e a oeste, o mesmo Bispado por um lado e por outro novamente o de Mariana, servindo de linha divisória a Serra da Mantiqueira.  Daí a razão da Paróquia de Resende contar com dezenas e dezenas de Padres, Coadjutores, curas, capelães e encomendados nomeados pelos Párocos para ajudar nos trabalhos da Paróquia.
 Resende deve muito a esses homens da Igreja que no passado abriram através do seu conhecimento eclesial e leigo os caminhos para o progresso do Curato, da Freguesia, da Vila e por fim da Cidade de Resende. Assim nosso primeiro vigário tem sua nomeação oficial em 13 de Dezembro de 1759. Confirmada por El Rey Dom Jose I, que faz saber ao Reverendo Bispo do Rio de Janeiro, membro do conselho real, estando vaga a função na Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre. Que por informação do Padre Antonio Francisco Bittencourt, resolve por boa informação nomear Padre Filipe Teixeira Pinto, Presbítero do hábito de S.Pedro, para serviço de Deus na dita Igreja. O segundo Vigário foi Padre Henrique José de Carvalho, remodelou e ampliou a Igreja Matriz, introduzindo novos altares para devoções, assim como um destinando a imagem da Padroeira, que pertenceu a Bandeira de Simão da Cunha Gago fundador da Vila. Padre Filipe colocou então, em prática os princípios da doutrina cristã, determinando aos demais párocos o ensino do Catecismo Romano, sobretudo a devoção mariana.
Fig.1 Imagem de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova pertencente ao altar portátil de Simão da Cunha Gago , sobre responsabilidade e guarda do então capelão  da expedição Padre Felipe Teixeira Pinto (1747). Madeira Policromada, origem Portugal séculos XVII / XVIII(?). Fonte: foto Fernando Lemos 2009

II - A Imagem de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova e sua representatividade social.
 Sabemos muito bem o que significa conceitualmente a arte sacra: é aquela arte religiosa que tem um destino de liturgia, isto é, aquela que se ordena a fomentar a vida litúrgica nos fiéis e que por isso não só deve conduzir a uma atitude religiosa genérica, mas há de ser apta a desencadear a atitude religiosa exigida pela Liturgia, quer dizer para o culto divino. Entretanto há na verdade entre as várias expressões de fé consubstanciadas nas imagens de culto litúrgico como a de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova, objeto alvo de nosso estudo, um caráter de extrema importância em conjunto com aspecto religioso a sua dimensão histórica e social, pois ela marca representatividade social da Igreja e seus membros como elementos  ativos no processo de desbravamento e consolidação dos sertões brasileiros do século XVIII . Ao relatarmos um pouco da história  do Arraial de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre podemos entender o valor não só representativo da imagem como elemento de fé e religiosidade, mas bem como seu valor imaterial do ponto de vista cultural significando um marco no processo de colonização e evolução de toda a sociedade do Vale do Paraíba Fluminense.
III – Características da imagem de N. S. da Conceição do Campo Alegre

            A imagem guarda os seguintes pontos característicos segundo especialistas em arte sacra madeira policromada provavelmente de origem portuguesa (? Séculos XVII ou XVIII), porem existe a hipótese de ter sida confeccionada no Brasil, pois lembramos que nesta época de 1747 o Arquiteto Francisco Xavier de Brito deu início as decorações da Igreja de Nossa Senhora do Pilar em Vila Rica(Ouro Preto) ponto marcante do auge do arte sacra uma vez que a demanda por objetos litúrgicos pelas irmandades e pessoas de posse era grande. Vê-se nitidamente que é uma estátua de madeira recoberta por camada de gesso e argila africana, sobra a qual se aplicava a lâminas de ouro como vemos nos detalhes do manto. Por fim pintava-se a peça, conforme técnica tipicamente do barroco brasileiro, antes de secar a peça desenhava-se com estilete descobrindo o ouro previamente colocado. Sobre o ouro ou prata era aplicada a tinta, óleo ou têmpera oleosa, e para que o metal precioso subjacente aparecesse à tinta era removida nas partes necessárias com estiletes ou com um penteador, o que possibilitava o desenho de intrincados padrões florais ou abstratos, imitando brocados e bordados de tecidos verdadeiros, dando à imagem um aspecto suntuoso, como era o gosto barroco. As imagens de Nossa Senhora são umas das peças mais demandadas pois dentro da tradição Católica Portuguesa trazida ao Brasil, Nossa Senhora é padroeira e zelosa guardiã dos feitos português nas terras do Brasil. Sempre representada com o manto azul e branco conforme tradição mariana, nossa imagem não foge ao padrão tradicional,vemos também brocados feitos em pintura áurea. A base feita na forma de esfera celeste temos rostos de querubins e transpassando tal esfera a lua crescente que sobre ela transcende a Stella Maris, Stella Mater ou Regina Coeli ou seja a própria Nossa Senhora da Conceição. As mãos da imagem tem um ar fino e rechonchudo dando um significado de mulher saudável, seu rosto fino nos traços e de olhos grandes feito de vidro no traz um ar piedoso tanto no olhar quanto na posição da cabeça encimada por uma coroa de prata. Sobre a testa verificamos uma pinta que não sabemos identificar se é um descascamento natural ou um simbolismo indiano do terceiro olho, talvez nos levando se for característica original da imagem a uma origem nas índias portuguesas principalmente se observamos a posição de mãos posta e a torção típica das imagens de origem indiana fazendo o “namastê”.


 fig.2 - Nossa Senhora da Conceição vista do dorso superior - foto Fernando Lemos 2009.


 fig.3- Nossa Senhora da Conceição vista da Coroa de Prata - foto Fernando Lemos 2009.



 fig.3 - Nossa Senhora da Conceição detalhe do rosto e manto da cabeça e olhos - foto Fernando Lemos 2009.



 fig.4 - Nossa Senhora da Conceição vista do dorso médio - foto Fernando Lemos 2009.



 fig.5- Nossa Senhora da Conceição vista da base com os querubins e Lua - foto Fernando Lemos 2009.



 fig.6 - Nossa Senhora da Conceição vista do detalhe do manto com pintura a ouro - foto Fernando Lemos 2009.



 fig.7 - Nossa Senhora da Conceição vista das mãos - foto Fernando Lemos 2009.



 fig.8- Nossa Senhora da Conceição vista geral do rosto com detalhe da "pinta" - foto Fernando Lemos 2009.
Vimos então que desde a sua fundação como Arraial de Nossa Senhora do Campo Alegre da Paraíba Nova nos idos de 1744, Resende teve e tem papel preponderante na história da região do Vale do Paraíba uma vez que sempre esteve a partir de sua fundação nas rotas de abastecimento e apoio das caravanas que se deslocavam no seu ir e vir da costa aos sertões fazendo-se de extrema importância estratégica dentro da logística não só do período bandeirista dos séculos XVII e XVIII quando das empreitadas sertão adentro em busca de índios e, sobretudo na procura de mananciais auríferos das Minas Gerais. Por fim, dizemos que tudo se encaixa na saga do desbravamento dos sertões na procura de uma passagem através dos contra fortes da Mantiqueira, onde nessa dinâmica vemos a importância dos desbravadores como Simão da Cunha Gago e de sua Imagem Padroeira-Peregrina de Nossa Senhora da Conceição  para sociedade que temos hoje e para todas as cidades fronteiriças dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais que acabam partilhando uma História comum fazendo surgir centenas de capelas e igrejas sob os auspícios de Nossa Senhora da Conceição.



Bibliografia

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Fontes telematizada:
Arte Sacra – acessado 12/7/2010 18:15:40  in : http://www.artesacra.com.br/index.php



[1] Etimologia: casa de papagaio
[2] Pizarro, José de Sousa Azevedo.  Memórias Históricas da Província do Rio de Janeiro, 1820.Taunay dá a chegada de Cunha Gago e expedição ao Campo Alegre por volta de 1740 oriundo de Aiuruoca – Hist.do café no Brasil,vol.II,p.141.

[3] Vide anexo I  imagem trazida por Simão da Cunha Gago em 1747 pertencente a Paróquia de  N.S.da Conceição.Resende-RJ
[4] “A ordem de 9 de abril de 1745 proibiu de usar-se do caminho que , das minas se Aiuruoca abriram Antonio Gonçalves de Carvalho e outros sócios para o Rio de Janeiro e costas do mar." Pizzaro  : Memórias Históricas do Rio de Janeiro. Rio,1820. Maneira encontrada pelo governo colonial para coibir o desvio e o contrabando do ouro das Minas Gerais.p.38