quarta-feira, 12 de junho de 2019

Uma cidade na Frente de Batalha CALIBRE 32 – RESENDE EM ARMAS


Julio Cesar Fidelis Soares[1]


[1] Professor Universitário aposentado, Mestre em História Social, membro do Instituto de Estudos Valeparaíbano (IEV), da Academia Resendense de História e da  Academia de História Militar Terrestre do Brasil.

RESUMO
O presente estudo tenta buscar um pouco da história da Revolução de 1932, que ocorreu em grande parte do território do Vale do Paraíba nas áreas fronteiriças entre os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas exatamente nas terras de Resende que era alvo estratégico na visão militar paulista e das tropas governistas. O trabalho tem a intenção de chamar atenção para mais estudos sobre a Revolução e seus protagonistas em ação no Médio Vale do Paraíba.

Palavras – chave: população – revolução - representação social



Falar da Revolução Constitucionalista de 1932 é lembrar-se de imagens, vídeos, reportagens de um confronto que pouca gente conhece e que na maioria das vezes acham até engraçado, pois só se falam de um lado, mas que história é esta que têm um confronto que não existe inimigo do lado oposto? As cidades afetadas foram somente algumas? Onde entra o Vale do Paraíba, sobretudo a parte do Vale Fluminense? São questões que pretendemos de maneira ainda que inicial dar vida e voz para futuros trabalhos a respeito deste tema. Assim procuraremos falar um pouco da ação das forças legalistas na Resende dos anos de 1932, que passou a ser sede comando do Destacamento do Exército do Leste, sob a direção do General Pedro Aurélio de Góis Monteiro figura importante para que o Estado Novo se consolidasse e tomasse rumo nos seus anos de gestão do Brasil. Veremos que muitas decisões importantes partem desta parte do vale rumo ao Rio de Janeiro em intensa correspondência entre o General Pedro Aurélio Góis Monteiro e o Presidente Vargas.



General Góes Monteiro e Major Zenobio da Costa – Fonte:(Revista Careta 1932) 

Quando se inicia o movimento no Estado de São Paulo, Resende sente os primeiros efeitos da movimentação de tropas uma vez que as mais importantes unidades militares paulistas vão se voltar para direção de Resende como primeiro ponto a ser conquistado com vistas a chegar à capital federal.  A cidade tranquila do interior com seus casarões centenários advindos do ciclo cafeeiro transforma-se em setor de operações das tropas do governo(legalistas). Itamar Bopp nos relata que em 10 de março de 1932, entra na cidade sob o comando do Coronel Pinto Coelho, um pelotão do 1º Regimento de Cavalaria Divisionária, que monta sua área de acantonamento em Campos Elíseos.




Destacamento reconhecimento de Cavalaria do Exército em 1932  frente leste. (Foto: revista Careta -1932)



 No dia 12 de março o comando é passado ao Coronel Manoel de Cerqueira Daltro Filho(2) . O destacamento é reforçado por mais três unidades do exército, quando se instala o Quartel General em dependências da Estrada de Ferro, ou seja, na sede da Estação Ferroviária de Resende, neste momento é proclamada aos habitantes de Resende que a cidade está ocupada militarmente como medida preventiva e é divulgado quais as restrições sob ordem marcial. Mais de 800 homens são mobilizados para manterem a ordem e disciplina em função do momento delicado.
    No dia 16 de março chega à cidade o Presidente Getulio Vargas, em visita as tropas acantonadas em Itatiaia.  Teve contato com soldados concitando-os a manterem a ordem e dentro do possível tratar com tolerância os revoltosos, pois são brasileiros. Um fato interessante desta visita é que o Presidente Vargas fala aos oficiais de sua pretensão de voltar a Resende para assistir o lançamento da pedra fundamental da nova Escola Militar em terras de Resende. Fato é que no dia 29 de Junho de 1938, o presidente Getúlio Vargas e comitiva participam do lançamento da pedra fundamental da Universidade Militar das Agulhas Negras, que depois passa se chamar de Escola Militar de Rezende e em 1951 ganha o nome atual de Academia Militar das Agulhas Negras.
. No lado paulista as tropas progridem em sua infiltração no distrito de Engenheiro Passos, em Formoso área de São Jose do Barreiro ainda dentro de terras paulista mais que dariam o controle de um setor importante como a rodovia São Paulo – Rio  e também por este município paulista ter função estratégica num movimento para captura de Resende. Dentro do seu processo de progressão as tropas paulista avançam sobre a freguesia de Sant´Anna dos Tocos fazendo com que a população local fugisse para não sofrer os reveses das possíveis lutas. Bopp ainda nos dá notícias de que patrulhas da cavalaria paulista esquadrinhavam a região em missões de reconhecimento chegando à altura da fazenda Babilônia(3)  cerca de 10 km da cidade de Resende.
  Já o distrito de Itatiaia é que vê de fato os efeitos da Revolução, pois tropas da Infantaria paulista em conjunto com milicianos revolucionários ocupam a estação ferroviária da Central do Brasil. Imediatamente o Comando do Destacamento do Leste procura ordenar a movimentação de tropas para repelir o avanço dando inicio a uma reação a 17 de março de 1932. Houve confronto e as tropas paulistas revolucionárias recuam em função da ação legalista, o saldo foi a recaptura do setor e o aprisionamento de retardatários que em sua maioria segundo Bopp eram jovens e que já estavam desprovidos de munição, fato que vai ser recorrente nas tropas paulistas ao longo do confronto. Ainda segundo Bopp na região de Engenheiro Passos havia muitos abrigos bem preparados e ele credita tais estruturas às tropas paulistas da Guarnição de Lorena; Esta unidade é o antigo 5º Regimento de Infantaria de Lorena –SP, hoje chamando-se atualmente de 5º Batalhão de Infantaria Leve - Regimento Itororó, foi criado em 04 de junho de 1908, com a denominação de 5º Regimento de Infantaria e sede inicial na cidade paranaense de Ponta Grossa, aproveitando elementos dos 13º e 14º Batalhões de Infantaria. Somente em 10 de novembro de 1923, recebeu o Regimento nova organização, com sede na cidade de Lorena - SP, ocupando as antigas instalações do 53º Batalhão de Caçadores. 
  Em função da delicada situação de confronto é instalada na Santa Casa de Misericórdia o Serviço de Saúde Divisional sob o comando do Capitão Médico Dr. Gentil Alves(4) , que foi auxiliar de instrução do serviço de saúde em tempo de guerra – trabalhos práticos da Escola de Saúde do Exército em 1930. O Dr. Jose Máximo Ballieiro médico resendense de maneira espontânea coloca seus serviços no auxilio as intervenções cirúrgicas realizadas no Ambulatório Militar instalado na Santa Casa. Chegam junto mais reforços ao contingente local e ficaram alojados nos cinemas Odeon e Central, no Grupo Escolar Dr. João Maia e Grupo Escola Ezequiel Freire em Itatiaia.  A residência do Dr. Oliveira Botelho(5)  também foi utilizada como abrigo aos militares bem como sua fazenda Santo Amaro, o contingente foi abrigado por força de que o filho do proprietário o tenente Cesar Botelho fazia parte deste destacamento.
E as tropas chegam em maior número aumentando toda movimentação bélica na cidade pois para Resende vieram o 2º Batalhão da 1º Grupo de Artilharia da Paraíba do Norte, com efetivo de 400 homens sob o comando do Capitão Muniz.

Em função dos combates são capturados em Engenheiro Passos próximo a Estação 30 soldados paulistas, na sua maioria jovens de ascendência italiana. Bopp diz que foram interrogados pelo Oficial de Dia ao Q.G. que lhes perguntou: “São Brasileiros?”  e responderam de maneira altiva : “Somos Paulistas”.
Em função dos combates as tropas legalistas avançaram em suas incursões e toma Sant`Anna dos Tocos aos paulistas, após violentos combates. Os paulistas depois abandonarem o campo de combate deixaram o soldado Ulisses Nunes Pereira , 21 anos ,Pernambucano, soldado do 4º Batalhão de Infantaria ,quarta companhia , que foi o primeiro soldado a falecer em dependências da Santa Casa em razão dos ferimentos de combate. Segundo Bopp , o soldado Ulisses Nunes, era o praça numero 678 do 4º BI faleceu em função de uma peritonite. E foi sepultado no Cemitério Senhor dos Passos em sepultura de nº 22593- 1932.
O General Pedro Aurélio de Góis Monteiro(7) transfere seu Q.G. de Barra Mansa para Resende instalando-se em Campos Elíseos, em composição ferroviária da Central do Brasil disponibilizada ao Destacamento do Exército do Leste. Em 19 de agosto ele envia um documento de seu Q.G. em Resende para Getulio Vargas relatando os fortes combates em que as tropas legalistas envolveram-se e mostram-se segundo ele com bastante coragem revelando seu valor todo seu valor. Comenta sobre a presença do trem blindado que causou baixa no exército legalista, fala ainda do uso pelos paulistas de granadas de gás lacrimogêneo e granadas de mão. Solicita ele então os mesmos meios ao presidente . Num telegrama datado de 20 de setembro de 1932 igualmente enviando ao Dr. Getúlio, Góis Monteiro relata o bombardeio de Lorena pelos revoltosos com uma peça de 150 mm, denominado pelos paulistas com o nome de CATARINA(8)  e avisa que deu um ultimato aos paulistas se continuarem atacará as diversas cidades do Vale do Paraíba progredindo até São Paulo(9) .



Peça 150 mm Schneider Artilharia Paulista. (Foto: http://peregrinacultural.files.wordpress.com/2008/08/1-32sp122.jpg)



Um grande número de soldados é baixado para Santa Casa não por causa dos embates mais por causa dos carrapatos e só uns poucos foram baixados feridos por conta dos embates. Prestaram serviços ao Serviço de Saúde Divisionário, instalado na Santa Casa os escoteiros, Gleber Novaes, Apolo Frech,Willi Novaes,Jose Soares e outros meninos do Grupo Escolar Dr. João Maia que serviram à Secção de Saúde do Exército. 

Escoteiros do Grupo Escolar Dr. João Maia apoiavam o serviço de saúde do Exército. Motorista, Gleber Novaes, Apolo Frech ,Willi Novaes ,Jose Soares (Foto: Acervo particular do autor: Prof.Julio Cesar Fidelis Soares)

A luta continua o Major Zenóbio da Costa(10)  inflige uma grande derrota as forças paulistas até então localizadas em Engenheiro Passos na altura da Fazenda Palmital(11)  nos contra fortes do Itatiaia.
Em função dos combates Resende, mais precisamente Itatiaia recebe a visita do Presidente Getulio Vargas que chega acompanhado pelo Ministro da Guerra e o General  Góes Monteiro.  O Presidente Vargas visita a tropa acantonada no local e depois vai a  Formoso na altura do Clube dos 200 para observar melhor a frente.  Ação perigosa, pois estava à pequena distancia da área de ação do Regimento de Infantaria paulista oriundo de Lorena(5ºRI). Em Resende o Comandante Militar de Ocupação baixa normas para os serviços postais telegráficos da cidade fixando censura militar. Intensificam-se as patrulhas de cavalaria e infantaria que rondam a cidade, onde a partir de 9 horas da noite foi estabelecido um toque de recolher que só pode ser revogado mediante um salvo conduto.
O bairro de Campos Elíseos foi ocupado pelas tropas e sua área do Horto Florestal do Ministério da Agricultura (conhecido na época por Chácara das Sementes) foi derrubada árvores para dar lugar a um campo de pouso para operação de esquadrilhas de aviões militares que iriam fazer operações de observação e ataque ao solo paulista. Os populares “Vermelhinhos” chamavam muita atenção dos locais, principalmente quando chega o primeiro deles pilotado pelo tenente Muricy  da aviação do Exército. O Tenente José Candido da Silva Muricy Filho(12) era da Arma de Artilharia e foi transferido para a Arma de Aviação em 21 de Agosto de 1930. Participou da Revolução Constitucionalista, em 1932, ao lado das forças governistas, chegando a engajar combate aéreo pilotando um Potez, tendo como observador-metralhador o Tenente José Vicente de Faria Lima.. Durante a revolução Constitucionalista, em 1932, operou-se com o Grupo Misto de Aviação com 5 Waco CSO (com metralhadoras e porta bombas) e 12 Potez 25 TOE (observação e bombardeio) juntamente com a Escola de Aviação Militar, esta com 11 De Havilland DH 60T (ligação, observação e regulagem de tiro de artilharia), 1 Nieuport Delage 72 (caça), 1 Amiot (bombardeio), participaram das operações ao lado das forças legalistas. Os aviões Waco eram chamados de vermelhinhos. Foram realizadas cerca de 1.300 missões e voadas, aproximadamente, 2.500 horas.
Aeronave Waco CSO –biplano, 2 tripulantes, motor Wright de 240 Hp, radial, 7 cilindros, refrigerado a ar, velocidade de cruzeiro de 180 Km/h. Podia ser armada com 2 metralhadoras Colt Browing .30 ou 7,7 mm, sincronizadas com a hélice, e transportar até 110kg de bombas.(Foto:Museu Nero Moura )


Tendo as forças legalistas alçado sucesso em suas operações as tropas progridem em direção a terras paulistas, a unidade do Serviço de Saúde do Exército deixa a Santa Casa de Resende para ficar em melhor posição junto a frente de combate, ficando uma unidade de apoio a Ambulância Mista Divisionária cujo comando era do Major Médico Dr. Mario Castro Pinto cujo efetivo era formado por farmacêuticos, enfermeiros, padioleiros; importante lembrar que estes padioleiros eram muitas vezes os jovens escoteiros da Divisão Escoteira de Resende auxiliados por  três ambulâncias. 
Neste momento enquanto umas unidades se deslocam rumo à frente de combate outras tropas chegam a Resende vindas de Alagoas, Sergipe e do Ceará, sendo que estes últimos são em especial mencionados por Itamar Bopp por sua fé em Padre Cícero, dizendo que em grande maioria usavam uma medalha do “Padrim” e não deixavam de ir às missas na matriz todos os dias. 
Os primeiros prisioneiros paulistas chegaram à cidade e foram para cadeia de Resende, todos jovens estudantes de Direito da Faculdade Paulista do Largo de São Francisco e depois chegaram ainda mais uma leva de 36 prisioneiros entre eles advogados, industriais e mais estudantes. Neste período ocorreu o falecimento na Santa Casa do jovem soldado legalista  de 21 anos Otávio Reis da Silva do 3º Batalhão de Caçadores , que foi sepultado no Cemitério do Senhor dos Passos com honras militares. O 3º Batalhão de Caçadores(13) é uma unidade histórica do Exército Brasileiro atuando em vários conflitos dentro da história militar brasileira teve como um de seus comandantes então Major Juarez Távora. Hoje ele é o 38º BATALHÃO DE INFANTARIA, localizado em Vila Velha - ES, foi criado em 19 de abril de 1851, na cidade de Salvador - BA, pelo decreto 782, com a denominação de meio Batalhão de Caçadores da Bahia. Ao longo de 150 anos de existência teve as seguintes outras denominações: Batalhão de Caçadores (1860), 16º Batalhão de Caçadores (1865), 16º Batalhão de Infantaria (1870), 50º Batalhão de Caçadores (1908), 3º Batalhão de Caçadores (1919) e, finalmente, 38º Batalhão de Infantaria (1973).
Dentre este cenário de hostilidades, quando da invasão das tropas paulistas as terras fluminense foi encontrado morto o sargento Ciso (Cícero) do 1º Regimento de Cavalaria Divisionária, sendo a primeira vítima dos embates entre as tropas legalistas na região da fazenda da Grama no distrito de Sant´Anna dos Tocos.
Sociedade e a luta

Varias entidades se engajaram no apoio as operações mais nenhuma foi tão atuante como a Loja Maçônica Lealdade e Brio que através de seu Venerável Mestre Jose Ferreira de Matos sede as instalações da loja para alojar oficiais superiores e sub-oficiais. Ao ter que se deslocar com a tropa que progredia dentro das linhas paulista o comandante da Ambulância Mista Divisionária Major Dr. Jose Valente Ribeiro agradeceu em ofício a prestimosa ajuda e colaboração da entidade e seus obreiros ao exército e a causa nacional. 
Mas não só de situações belas de solidariedade vive-se num momento com os de 1932, ocorreram problemas como o assalto da Fazenda Santa Maria, onde ocorreu o assassinato de Albino de Araújo, administrador da fazenda. As autoridades no sentido de manter a ordem local procederam a investigações e apuraram-se os culpados do crime um Cabo do Batalhão de Polícia de Sergipe José de Barros Cavalcante e o soldado Manoel de Almeida.
Outro fato que trouxe comoção a cidade foi à chegada do corpo do Capitão Cícero Augusto de Góes(14) Monteiro , morto em combate no setor de Silveira, sendo feito as exéquias fúnebres na Capela de N. S. da Boa Morte da Santa Casa de Misericórdia.
O Hospital de Convalescentes de Itatiaia em Campo Belo é utilizado como Hospital de Sangue em apoio às tropas, teve esta unidade o comando do Major Médico Dr. Lima Meirelles.  Este posto avançado deve ter sido deslocado para Itatiaia uma vez que os combates eram aguerridos na região de Engenheiros Passos, próximos a fazenda Palmital, pois houve grande infiltração de tropas paulistas neste setor. Segundo Bopp ocorre à distinção do 2º Tenente Cabral por bravura em combates na região entre Engenheiro Passos e Queluz, resendense que servia na 1ª companhia do 1º Batalhão do 1º Regimento de Infantaria. Nesta mesma região morre em função dos combates o Aspirante das forças Paulistas Almachio de Castro Neves(15) , que foi sepultado no cemitério do Distrito de Engenheiro Passos. Na página 33. Seção 1. (DOU) de 30/07/1935 existe um pedido pensão concedido pelo governo de pensão especial a Alda de Castro Neves, irmã solteira menor de Almachio de Castro Neves, 2° tenente do Exercito, com a despesa classificada de 27:313$200 e que julgou-se legal a concessão e ordenou-se o registro da referida despesa.

Resende fica na história militar brasileira não só por ter participado com sua gente na Revolução Liberal de 1842, na Guerra do Paraguai com seus Voluntários de Pátria que foram ao teatro de operações do Rio da Prata formando parte do contingente do 8º Corpo de Voluntários mas por sua participação efetiva da população as tropas legalistas o que acaba tendo um preço. E Itamar Bopp conta este episódio da seguinte forma:

“Na madrugada de 13 de agosto de 1932, por volta de três horas da madrugada, a cidade é despertada por violentos e sucessivos estampidos. Madrugada de luar argênteo. Buscam todos,atônitos ,conhecer a causa. Foi logo conhecida. Um avião que viera das bandas de São Paulo e que em baixa altitude sobrevoara o Campo de Aviação de Campos Elíseos, e o comboio da Central do Brasil que estacionado na estação de Resende,servia de Q.G. do General Góes Monteiro,tomando rumo a fazenda Santo Amaro nas cercanias da cidade, bombardeara terra limítrofes. Identificam-se sem tardança, os locais atingidos ,terra das chácaras de Adelino Souto e de Inez Teltscher,à rua do Rosário e um valo, nos campos do imóvel Santo Amaro, de propriedade do Dr.Oliveira Botelho. Indisfarçável o nervosismo da população. Por todo dia foi grande a romaria de curiosos ,civis e militares aos pontos atingidos. Um dos grandes petardos,o que caira na chácara Teltscher ,não explodira embora cravado até a meia altura ,no local depois de desgalhado pequena árvore que frondejava. Parece que o intuito do aviador ,foi tão só, fazer guerra de nervos,alarmando a população civil e atemorizando as tropa legais, com bombas feitas em Limeira pela firma Barros Camargo.” (16)

Sabe-se que o General Klinger(17)  determinou como ação de dissuasão que fosse feito o bombardeio aéreo das cidades do Rio de Janeiro, Barra Mansa, Barra do Piraí e Resende, sendo que Resende foi a única a ser atacada entre os quatros pretensos alvos das cidades citadas nas diretivas de Klinger a sofrer um ataque aéreo em 1932, fato como este que dentro da história militar brasileira faz da região alvo para mais estudos sobre a ação das tecnologias bélicas na historiografia militar brasileira. Talvez em função de sua posição estratégica dentro do confronto que a cidade recebe inúmeras visitas de gente importante para história do país naquele momento da história tais como o Almirante e Ministro de Marinha Protogenes Guimarães o Almirante Ary Pareiras interventor do Estado do Rio de Janeiro. Além do próprio Getulio Vargas que vem passar revista as tropas nas linhas de combate na região de Salto próximo a Nhangapi ao lado de seu comandante General Góes Monteiro.


Getúlio Vargas visita a frente de operações das forças governamentais entre Formoso e São Jose do Barreiro (SP), observando de binóculo a posição dos revolucionários paulistas e hoje sabemos que esta foto foi feita na região de Salto próximo a Nhangapi em Resende.RJ.
Ao fim as forças legalistas vão progredindo diante das vitórias contra os paulistas, as tropas que ora ocupavam a cidade vão em direção a Cruzeiro ponto tido como crucial para marcha até São Paulo. Foi este setor importante não só para os paulistas manterem por ser um importante entroncamento ferroviário, área comandada pelo Coronel Euclydes de Figueiredo que ocupa a cidade e bloqueia o túnel que separa essa cidade estratégica de Passa Quatro, em Minas Gerais. Esse episódio ficou conhecido como a Batalha do Túnel da Mantiqueira.
 Resende esteve ocupada por tropas de 10 de março até 23 de Setembro de 1932 com pleno envolvimento da população nas ações que acabam por marcar a história do Brasil nos primeiro momentos da década de 30 do século vinte. Podemos dar conta disto pela contabilidade de atendimentos da Santa Casa durante esta fase em que segundo dados foram atendidos 1.963 soldados, sendo 451 feridos em decorrência dos confrontos entre um lado e outro.


Nesta foto vemos artilharia legalista acantonada no bairro do Manejo se preparando para operações na fronteira com São Paulo.Fonte(Arquivo particular Luiz Filipe Pimentel).

Assim entendemos que o estudo das Guerras, das lutas internas mesmo que sendo fratricida como o episódio de 1932 nos ajuda entender com olhares positivos e negativos a luz da História Social e Militar os atos de bondade, dedicação, de benemerência por parte das populações que viveram um dos piores momentos da história de qualquer sociedade a guerra, que requer uma infra-estrutura como foram as usadas: fontes de energia elétrica, escolas, hospitais, templos religiosos, agremiações como a Maçonaria, o grupo de jovens escoteiros entre outras tantas. Por isto tudo devemos sempre ter olhares para o passado e relembrarmos de tudo o que passou e de todos aqueles que mesmo anonimamente participaram dos eventos que marcou e marcará a história do Vale do Paraíba a Revolução de 1932.

Fig.1 MAPA ESBOÇO DO TEATRO DE OPERAÇÕES do DESTACAMENTO DE EXÉRCITO DO LESTE -

Fig.2 - Exemplo de documento trocado entre o Comandante das Tropas Legalistas e o Palácio do Catete- Fonte: CPDOC FGV

Fig.3 Nesta imagem vemos oficiais do staff Coronel Daltro em frente ao antigo correto da Praça Dr. Oliveira Botelho.

Fig 4 . Linha de tiro forças de constitucionalistas entre Queluz e Resende - 1932


Fig. 5Diário de São Paulo Noticiando destruição da Ponte sobre o Rio Paraíba em Queluz de modo a impedir a evolução das tropas legalistas.

fig 6 -Destruição da Ponte sobre o Rio Paraíba em Queluz de modo a impedir a evolução das tropas legalistas.
Fonte: Laercio Fabbri 

Fig.7 Ponte sobre Rio Paraíba do Sul construída pelo Batalhão de Pontoneiros  para substituir a Ponte destruída pela Forças Paulistas em Queluz-SP. Fonte Revista Careta 1932 BN.


Fig.8 -Telegrama do Gen. Góis Monteiro o Presidente da República da central Telegráfica do QG para Palácio do Catete. Fonte: CPDOC FGV.


Fig.9 Residência em Resende da Família do Barão de Bananal Luiz da Rocha Miranda oferecida ao Exército para alojar oficiais sem local para pernoite.


fig 10-Grupo Escolar Dr. João Maia ao fundo a Casa de seu patrono, unidade escolar utilizada para dar abrigo aos feridos em combates, sobretudo àqueles que foram vitimados pelo ataque de carrapato pólvora. Fonte: Arq.Histórico Municipal de Resende.]
Bibliografia :
BARROS, Guilherme de Almeida. A Resistência do Túnel: revolução de julho de 1932. São Paulo: Piratininga, 1933. 233p. (ilust.)

BARROS, João Alberto Lins de. Memórias de um Revolucionário. Rio de Janeiro: scp, 1954.

Bopp, Itamar  RESENDE – CEM ANOS DA CIDADE  1848-1948.  São Paulo, Gráfica Sangirardi –São Paulo  418p.
Bento,Claudio Moreira, O 80º Aniversário da Revolução de 1932 – Algumas considerações,acessado http://www.militar.com.br/artigo-2489-O-80%C2%BA-Anivers%C3%A1rio-da-Revolu%C3%A7%C3%A3o-de-1932-%E2%80%93-Algumas-considera%C3%A7%C3%B5es#.Vgidx3pViko

COSTA, Emília Viotti da. 1932: imagens contraditórias. São Paulo: Arquivo do Estado, 1982. 104p.

DONATO, Hernâni. A Revolução de 32. São Paulo: Círculo do Livro, 1982. 224p.

NOSSO SÉCULO: memória fotográfica do Brasil no século 20. (Coleção) v. III. São Paulo, Abril Cultural, 1980. (pp. 38-57)

VARGAS, Getúlio Dorneles. O Ano de 32: a revolução ao norte. In: "A nova política do Brasil". v.2. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938.

VARGAS, Getúlio Dorneles. Diário Pessoal. São Paulo/Rio de Janeiro: Siciliano/FGV, 1995. 1257p.

Fontes Telematizadas:

ANDRADE, Antonio de TEMA: VIAGEM NO TEMPO PARA ENTENDER 1932
 http://www.editora-opcao.com.br/ada12.htm acessado em: 17 de junho de 2010

BENTO, Cláudio Moreira, História Militar OS 70 ANOS DA REVOLUÇÃO PAULISTA DE 1932 http:// www.ahimtb.org.br/ acessado em 21/6/2010.

CPDOC /FGV Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil http://www.fgv.br/cpdoc/busca/Busca/BuscaConsultar.aspx acessado do dia 10 a 22 de junho de 2010.
NOTAS:
  {2}Manuel de Cerqueira Daltro Filho (Cachoeira, 1882 — Porto Alegre, 1938) foi um militar brasileiro, tendo governado os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul por períodos breves, na condição de interventor federal.Inicou sua carreira militar aos 16 anos ao sentar praça no 9° Batalhão de Infantaria em Salvador. Após uma passagem pelo Rio de Janeiro, foi transferido para o Rio Grande do Sul, onde cursou a Escola Tática e de Tiro de Rio Pardo. Em 1901 retornou ao Rio para a Escola Militar da PraiaVermelha, onde permaneceu até 1904, quando a escola foi fechada por haver apoiado a Revolta da Vacina.Entre 1906 e 1908 retornou ao Rio Grande do Sul para cursar a Escola de Guerra em Porto Alegre. Em 1911 é transferido para Curitiba, onde no ano seguinte passou a integrar o Estado Maior do general Setembrino de Carvalho, tendo participado do combate ao movimento do Contestado. Ainda em Curitiba participa, com os amigos Victor Ferreira do Amaral e Nilo Cairo, em 19 de dezembro de 1912 da criação da Universidade do Paraná, embrião da UFPR, compondo a primeira diretoria da instituição, no cargo de 2° secretário.
  (3)A Fazenda Babilônia foi, no século XIX, uma das propriedades de D. Maria Benedita Gonçalves Martins, uma das mulheres mais empreendedoras na região do Vale do Paraíba, pois chegou a ser conhecida pela alcunha de “a Rainha do Café”, dona e dirigente de cerca de dez fazendas, que totalizavam uma produção de 40.000 arrobas ao ano. Mulher dinâmica, Maria Benedita colaborou com doações financeiras e materiais para a construção e manutenção da Santa Casa de Misericórdia de Resende, fundada em 1835. Organizava campanhas, festas, quermesses, bingos, cujos recursos arrecadados eram destinados por ela à causa da educação no município. Criou uma banda de música formada por seus escravos, que ficou famosa graças à sua habilidade. Com instrumentos trazidos da Europa e uniformes feitos no Rio de Janeiro, ao estilo das fardas usadas pelas milícias, com polainas e quepes. Sua banda passou a ser presença obrigatória nas festas realizadas por ela no seu sobrado em Resende, em suas fazendas e, também, nas celebrações religiosas e cívicas. Por ocasião de seu falecimento, a Fazenda Babilônia coube a seu filho Antônio Augusto Martins, que, assim como sua mãe, foi também um dos maiores produtores de café em Resende.

 (4) Capitão Antônio Gentil Basílio Alves foi auxiliar de instrução do serviço de saúde em tempo de guerra – trabalhos práticos da Escola de Saúde do Exército em 1930.

  (5)Nascido na capital uruguaia enquanto seu pai exercia função diplomática(19 de fevereiro de 1869, filho de Joaquim Antônio de Oliveira Botelho e de Basília Augusta Chaves família tradicional de Resende), doutorou-se em medicina pela Faculdade de Salvador em 1890. Residiu na cidade de Resende, no Sul Fluminense, onde clinicou por muito tempo.Foi deputado estadual fluminense de 1901 a 1905. Em 1909 foi eleito deputado federal. De 1 de novembro a 31 de dezembro de 1906 assumiu pela primeira vez a presidência do estado do Rio de Janeiro, após a eleição de Nilo Peçanha para o governo federal. Foi sucedido por Alfredo Backer.Voltou ao cargo, dessa vez eleito, em 31 de dezembro de 1910, passando o cargo novamente para Nilo Peçanha, em 31 de dezembro de 1914. Foi ainda eleito para a Câmara dos Deputados em 1926, terminando sua carreira política como ministro da Fazenda de Washington Luís (17 de dezembro de 1927 a 24 de outubro de 1930).

 (7)Carta de Góes Monteiro a Getúlio Vargas elogiando a visita do Ministro da Guerra, Olegário Maciel, informando sobre o combate travado com as forças rebeldes durante o dia e reiterando pedido para que seja providenciada a remessa de armamentos. Resende (Vol. VII/42). CPDOC FGV acessado em 22/6/10.
http://www.fgv.br/cpdoc/busca/Pasta/PastaPesquisaConsultar.aspx

  (8) In Jeziel de Paula, Agonia & Glória, imagens, mitos e memórias da guerra civil brasileira de 1932, Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, setembro de 2001.

  (9)Telegrama de Góes Monteiro a Getúlio Vargas reiterando pedido para que as promoções militares sejam feitas com seu prévio conhecimento e comunicando o bombardeio da cidade de Lorena pelos rebeldes. Resende (Vol. VIII/5).CPDOC FGV acessado em 22/6/10 
http://www.fgv.br/cpdoc/busca/Pasta/PastaPesquisaConsultar.aspx

  (10)Euclydes Zenóbio da Costa,em 9 de maio de 1893, nasceu em Corumbá/MS, que viria a ser o idealizador da Polícia do Exército (PE) da Força Terrestre. Filho e neto de militares, estudou no Colégio Militar do Rio de Janeiro, no ano de 1903, de onde seguiu para a Escola Militar de Realengo, lá concluindo, em 1916, os cursos de Infantaria e Cavalaria. Terminada a Revolução de 1932, o então Major Zenóbio cursou a Escola de Infantaria e a de Estado-Maior e foi promovido, por merecimento, a tenente-coronel e a coronel. Neste posto, comandou o 3º Regimento de Infantaria. Promovido a General-de-Brigada em 1942, ocasião em que o Exército passava por radical transformação, assumiu o comando da 8ª Região Militar, em Belém. Acessado:http://www.anvfeb.com.br/zenobio.htm em 17/06/2010.

  (11)Fazenda construída no XVIII ao largo do caminho para Minas Gerais, além das atividades agrícolas a fazenda servia para atender os tropeiros como ponto de descanso nas viagens para as  Gerais, era parada obrigatória de que ia do Rio para estações termais. Acessado: em 19/06/10 http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2008/06/11_palmital.pdf.

 (12) Acessado em 20/06/2010 : http://www.reservaer.com.br/biblioteca/e-books/correio/4-expansao.html

(13)http://www.morrodomoreno.com.br/exercito.htm acessado em  22/6/2010

(14) Cícero Augusto de Góes Monteiro, filho de Pedro Aureliano Monteiro dos Santos e Constança Cavalcanti de Góes, casado com  Clara de Mendonça Machado em 13de  julho de 1923. Cícero nasceu em 25 de novembro de 1892 em São Luiz de Quitunde/AL, Brasil. Ele faleceu em 29 de agosto de 1932 no Vale do Paraíba/RJ, Silveiras-SP.

(15) Não achamos registros desta sepultura.

  (16)Bopp,Itamar ,Resende – Cem Anos da Cidade 1848-1948,Gráfica Sangirard ,São Paulo p.255
 (17)Bertoldo Klinger nasceu em Rio Grande (RS), em 1884, ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, em 1901. Junto com outros companheiros militares, participou da revolta contra a vacina obrigatória ocorrida em 1904, na então capital do país. Em função disso foi preso, só regressando ao Exército no ano seguinte, quando foi anistiado. Entre 1910 e 1912, esteve na Alemanha realizando estágio militar, quando tomou contato com as inovações técnicas e organizacionais então empreendidas no exército daquele país. Ao voltar ao Brasil, tomou parte na fundação da revista A Defesa Nacional, junto com outros militares que haviam realizado estágio semelhante ao seu. Por se mostrarem fortemente influenciados pela doutrina militar alemã, os incentivadores da revista receberam de seus adversários o apelido de "jovens turcos", numa referência aos jovens oficiais militares que, após terem tido contato com o exército germânico, voltaram à Turquia para promoverem reformas políticas e militares. Ocupou o posto de redator-chefe de A Defesa Nacional, e em suas páginas criticaria anos mais tarde, a indicação do nome de civis para os ministérios militares no governo de Epitácio Pessoa. A influência alemã fez também com que se opusesse à missão francesa contratada para reformular o Exército brasileiro no mesmo período. Acessado em 21/6/2010: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/biografias/bertoldo_klinger.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

TIRO DE GUERRA 451 Resende RJ – Patriotismo e Civismo em um só lugar


por : Julio Cesar Fidelis Soares[4]


Os Tiros de Guerra são originários das Linhas de Tiro criadas em 1902 no Rio Grande do Sul, com objetivo de treinar jovens das maiores cidades de cada região no exercício de tiro com vistas a formarem-se reservistas. A partir daí evoluem para os famosos  Tiros de Guerra, instituição militar do Exército Brasileiro  encarregada de formar reservista para o corpo de tropa do Exército Nacional. Suas organizações transcorrem com apoio das administrações Municipais e o Comando Militar da Região, sendo por este fornecidos os instrutores, fardamentos e equipamentos e por parte do município as instalações adequadas a tal empreendimento. Os Tiros de Guerra constituem importantes pólos difusores do civismo, da cidadania e do patriotismo coisas meio fora de moda, mas tão importante para um país que deseja alçar voos maiores. É o tipo de organização cívica que procura dar aos munícipes conhecimentos dos problemas locais, fazendo-os interessados nas aspirações e realizações de sua comunidade, como cidadãos integrados à realidade nacional. Além de prepará-los na intenção  de formar estes líderes democratas, atentos aos ideais da nacionalidade brasileira e à defesa do Estado Democrático de Direito.
Então dentro destes conceitos e objetivos é que se criou em 1 de abril de 1917, a linha de tiro Brasileira de Resende, teve como comandante um sargento da Força Pública do Estado do Rio de Janeiro. A organização local ficou a cargo do Prefeito Dr.Eduardo Cotrim Filho que dava apoio a esta estrutura funcionar no município. Quando o Brasil declara guerra à Alemanha[1] a linha de tiro de Resende recebeu a conscrição de 130 homens  para treinamento aos preparativos de guerra de modo terem condições de servir ao chamado da pátria.



Fig.1 Trecho Ata da Câmara Municipal de Resende registra ofício da Linha de Tiro de Resende em manifestos contra o afundamento do navio “Paraná” na 1ª Guerra Mundial. Fonte: Arquivo Histórico de Resende.

Em 1929 passado onze anos do final da Primeira Guerra fundou-se em Resende o Tiro de Guerra 451 , sendo seu primeiro presidente o Dr.Jose Alfredo Sodré, que procurou incentivar a juventude resendense a prestar serviços à pátria.
Instalado o Tiro de Guerra 451 e oficialmente ligado a Diretoria Geral do Tiro de Guerra,o processo deveu-se aos esforços de Jose Rizzo  e do Sargento do Exército Arnaldo Braga que foi instrutor de tiro  do Tiro de Guerra de Barra Mansa. O stand de tiro foi localizado na Fazenda do Castelo por cessão  do Coronel Abilio Godoy ao Ministério do Exército.
Sua estrutura ficou assim constituída: presidente Alfredo Sodré, vice-presidente Jose Rizzo, secretário João T. de Andrade e tesoureiro Heitor Vieira, neste momento passou a servir como instrutor o Sargento do Exército José Veloso Filho, segundo relato foram inscritos 145 sócios e 54 atiradores.
Fig.2 Turma do Tiro de Guerra 451 em 1929 Resende-RJ.
Os jovens da cidade já estavam acostumados e ficavam empolgados, pois desde 1909  Resende recebia contingentes do Exército. Segundo Itamar Bopp neste ano a cidade recebeu um pelotão de pontoneiros do 1º Batalhão de Engenharia sediado no Rio de Janeiro, fazendo exercícios de lançamento de pontes na região do Surubi, Três Morros e Campos Elíseos.
Em 1917 a recém fundada linha de Tiro de Resende participa das comemorações do dia da Bandeira fazendo cumprir, portanto seus objetivos como pólo difusor de civismo, ainda mais quando a população do município saiu à rua com a Bandeira Nacional em demonstração de protesto ao governo da Alemanha que tinha torpedeado navio Brasileiro “Paraná”.

Em 1917 a recém fundada linha de Tiro de Resende participa das comemorações do dia da Bandeira fazendo cumprir, portanto seus objetivos como pólo difusor de civismo, ainda mais quando a população do município saiu à rua com a Bandeira Nacional em demonstração de protesto ao governo da Alemanha que tinha torpedeado navio Brasileiro “Paraná”.
Neste mesmo ano Resende, segundo Bopp é visitada por um piquete de Cavalaria do Exército sob o comando do Tenente Genserico Vasconcelos,que empreenderia um raid São Paulo – Rio de Janeiro. Foi recebido na entrada de Campos Elíseos pelo Dr. Alfredo Sodré futuro diretor do Tiro de Guerra 451. E ainda neste ano 1917 no Grupo Escolar Dr.João Maia é formado o “Batalhão Escolar”, militarmente armado e instruído pelo Instrutor da Linha de Tiro Sargento Romário Porto membro do destacamento da Brigada Policial do Rio de Janeiro.
Em outro momento deste mesmo ano 1917 a cidade envia seu primeiro contingente para o serviço militar obrigatório, onde neste momento solene houve desfile dos alistados ao som da Banda de Musica “Santa Cecília” e discurso s onde falaram em prol do valor do serviço a pátria o Coronel Mendes Bernardes, presidente de a Junta Militar de Alistamento, o Sr. Mario de Paula deputado, o jornalista Alfredo Sodré e Amadeu Alvarenga.
Vendo que Resende sempre teve uma vocação militar, que acabava por chamar a atenção dos jovens do local, a exemplo disto, acantona-se na cidade um grande pelotão de cadetes da Escola Militar do Realengo que sob o comando do Tenente Vilaboim estavam a empreender a título de exercício de marcha um raid Rio-São Paulo. 
Outro exemplo interessante foi a presença de oficiais do exército  conforme dito por Bopp na região de Marechal Jardim(hoje Engenheiro Passos) e Campo Belo(hoje Itatiaia) de modo a analisarem os locais para manobras da 3ª Divisão de Exército, cujo contingente era estimado em 5.500 a 6.000 homens das diversas armas.
Bopp também nos relata a solenidade de juramento a Bandeira Nacional da primeira turma de atiradores do Tiro de Guerra 451. Houve missa solene rezada na Matriz, onde em momento solene foi entregue aos atiradores a Bandeira Brasileira confeccionada em seda e oferecida pelas senhoras de Resende. Em seguimento a atividade cívica no grupo escolar Dr.João Maia foi prestado o juramento pelos membros do Tiro de Guerra. Sob comando do instrutor o Sargento do Exército Luiz Barbosa. 
Dos jovens resendenses que fizeram parte das turmas do  Tiro de Guerra 451,temos a figura de um ilustre resendense o celebre fotógrafo Flavio Guerreiro Maia, em nossas pesquisa chegamos a uma fonte importante para nossos estudos a caderneta de tiro do atirador Flavio Maia,tal documento foi possível consultar a partir do  acervo do Arquivo Histórico Municipal de Resende. Assim neste momento é possível ensaiarmos algumas análises da Caderneta Militar. 
Primeiramente devemos entender o que uma “Caderneta de Tiro”, que na verdade é uma espécie de diário do atirador, onde este registra todas as atividades de treinamento com a sua arma,posicionamento de tiro, registro das salvas dadas e grau de acerto e erros. Neste caso a caderneta traz seu número de registro, ano das atividades, a companhia do atirador, e a que atirador pertence. Registra também que tipo de arma foi usada, fuzil ou mosquetão. Nas folhas de registro de treinamento aparece se o exercício é de grupamento ou individual, a distância, a alça,o número da arma, posição em pé ou deitado com arma apoiada ou não. Também figura os registros dos diâmetros dos círculos dos escantilhões, 4,8,12 ou 16 centímetros e ainda a quantidade de tiros acertados. 

Da caderneta de Flávio Maia obtivemos as seguintes informações: nome do incorporado e categoria,classe, que neste caso é a de 1911,número de registro da caderneta 2138 série A e a unidade. No caso em análise é 1ª Divisão,2ªBrigada de Infantaria,1º Batalhão de Caçadores, Tiro de Guerra 451 – Resende-RJ. Já na folha de identificação do atirador registra-se : Nome do atirador(Flávio Guerreiro Maia),altura(1,80),cabelos(castanhos),barba(imberbe),bigodes(nãotem),cor dos olhos(castanhos),boca(pequena),rosto(oval),nariz(pequeno). Além destes registros de descrição física havia também informações de cunho intelectual: Lê?,Escreve?,Conta?. 


Na página de declarações figura informações como: filiação, naturalidade, profissão, estado civil, se foi vacinado e se sabe nadar. Na parte de registro de aproveitamento de instrução, temos o grau de aproveitamento e data do compromisso  à bandeira. Em outra página registra-se onde se apresentar em caso de mobilização que no  presente caso seria o 1º Batalhão de Caçadores[2].


Hoje acredito na importância cada vez maior deste tipo de organização que é formada basicamente pelas comunidades municipais e as autoridades militares em sua representação do Estado constituído. Um país como nosso entre as maiores economias do mundo e rico em minerais estratégicos necessita urgentemente destas escolas de patriotismo e civismo com vista à defesa do que é nosso e de nossos valores como nação e naquilo de devemos legarem as gerações futuras de brasileiros. Países ricos em poder, mas pobres em caráter hoje e sempre voltam seus olhares às riquezas naturais do povo brasileiro ainda mais vendo o descaso dos governos ou mesmo a conivência na distribuição daquilo que dos brasileiros por direito. Assim acredito na necessidade histórica de mostrarmos a população à verdadeira necessidade de nos organizar para defesa de nossa terra com força bem equipadas e treinadas para defender o Brasil em qualquer parte do país, situação pensada no passado na constituição dos famosos  Batalhões de Caçadores[3].



Bibliografia:
Arquivo Público de Resende, Fundação Casa de Cultura Macedo Miranda, acervo documentação da Câmara Municipal de Resende.
Bopp, Itamar.  Casamentos na Matriz de Resende.  Instituto Genealógico Brasileiro, 1971.
_____________.REZENDE — OS CEM ANOS DA CIDADE — 27-VIII-1948 de colaboração com o Coronel José Alfredo Sodré.
Fontes telematizadas:
Linhas de Tiro:
Tiro de Guerra:
Tiros-de-Guerra—O Apoio da População: Vital à Vitória Militar-General-de-exército Paulo Cesar de Castro (reserva) :



[3] No Brasil, os três primeiros Batalhões de Caçadores foram criados pelo Decreto de 13 de outubro de 1822, que determinou que os três Batalhões de Fuzileiros da Guarnição da Corte assim passassem a denominar-se. Iniciava o Decreto: “Mostrando a experiência que as Tropas Ligeiras são as mais análogas ao local, e systema de defeza desta Província...”Esse tipo de tropa foi bastante usado no país, devido o Brasil não possuir potenciais inimigos externos; sendo as forças armadas empregadas principalmente em operações de defesa interna.Com a segunda guerra mundial as unidades de Caçadores foram todas transformadas em de infantaria; permanecendo a designação apenas na tradição de alguns batalhões.Recentemente, esse termo passou a denominar o combatente especialista em tiro de precisão do Exército; o qual em geral atua em dupla e é responsável por emboscar e inquietar a tropa inimiga.Um caçador é um tipo de soldado de cavalaria ou de infantaria ligeira existente nas forças armadas de alguns países. Podem existir várias especialidades de caçadores, como os caçadores a pé, os caçadores a cavalo, os caçadores de montanha e os caçadores paraquedistas.


[2] Criado ainda no Brasil Império, em 28 de fevereiro de 1838, é uma das mais antigas Unidades da Arma de Infantaria do Exército Brasileiro, tendo como seu elemento formador o 1º Batalhão de Caçadores, organizado nesta data em Desterro, hoje Florianópolis-SC.Nasceu catarinense e hoje é um orgulhoso sergipano. Passou por diversas transformações sem jamais perder o seu elã, sempre defendendo a Pátria. Esteve na Côrte, passou por Cuiabá e chegou nesta cidade de Aracaju em 09 de março de 1917, com a denominação de 41º Batalhão de Caçadores, sendo finalmente transformado no 28º Batalhão de Caçadores em 31 de dezembro de 1921.Em 1920, fruto de nova reorganização do Exército, passou a denominar-se 1º Batalhão de Caçadores (1º BC), sediado-se em São Gonçalo. Em 1922, retornou novamente à cidade do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, o então Ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras, atendendo a uma velha aspiração dos petropolitanos, efetivou a compra da Fazenda Presidência, da família Justen e a construção do Quartel, onde compareceu à Petrópolis para inaugurar as instalações do 1ª Batalhão de Caçadores. Em 1923, o 1º BC foi transferido definitivamente para a cidade de Petrópolis, vindo a se instalar no novo aquartelamento em 9 de julho de 1924. Durante a Revolução de 1930, cumprindo determinação do Governo Federal, deslocou-se para Belo Horizonte, onde atuou bravamente, nos combates de Benfica e Mariano. Mais tarde, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, destacou-se nos combates de Sant´Anna dos Tocos(Resende-RJ), Passa Vinte(MG) e Itagaçaba(Cruzeiro-SP).




[1] No dia 05/04/1917, um dos maiores navios da frota Mercante brasileira, o Paraná, com 4.466 toneladas, carregando café, foi torpedeado por um submarino Alemão na costa Francesa. Três tripulantes morreram. Os agressores ainda dispararam cinco tiros de canhão contra os náufragos. Em 1 de junho de 1917 o Brasil declarou guerra aos países da Tríplice aliança.http://www.naufragiosdobrasil.com.br/1guerranavbrasil.htm


[4]Mestre em História Social , membro da Academia Resendense de História,IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos)e da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A expansão da fronteira agrícola em Resende e as terras indígenas um breve estudo


                                                                                                                       Julio Cesar Fidelis Soares(1)
     O Vale do Paraíba e a Vila de Resende entram nesta história primeiramente com a terra que se mostrou atrativa pelo custo e produtividade, um aspecto importante é a visão ou a proto visão dos conceitos econômicos de custo de oportunidade nos investimentos. Vários aspectos técnicos geológicos da terra valeparaibana favoreceram a chegada do café.  Por um lado, num país onde apesar das vastas quantidades de terras disponíveis, a terra sempre foi um bem disputadíssimo (principalmente quando eram próximas aos grandes portos), o Vale do Paraíba oferecia um atrativo fascinante: terras praticamente desocupadas. Com exceção de algumas pousadas e de uns poucos engenhos de açúcar sem grande expressão, a mata virgem dominava soberana região. Se a floresta tropical havia resistido ao colonizador até a passagem do século XVIII para o XIX, a partir daí os altos preços do café no mercado externo abriu contra ela uma guerra de vida ou morte. Somente a possibilidade grandiosa de enriquecimento proporcionada pelo café, fez com que este eliminasse o primeiro dos grandes riscos que a região impunha a floresta. O desmatamento e as "coivaras" (as queimadas que os índios faziam em pequena escala) passaram a fazer parte do cotidiano do Vale. O solo era fértil, sem dúvida. Como toda floresta recém-cortada, mantinha por um bom tempo ainda seu húmus além de que as cinzas das queimadas, de imediato, reforçavam esta aparência de fertilidade permanente. Por outro lado, o café é uma planta extremamente delicada e exigente, precisando de um clima onde o frio não seja intenso e também onde o calor não fosse abrasador.  Além disso, exigia que as chuvas não fossem demasiadas, nem escassas e, de preferência, bem distribuídas o ano inteiro. Essas pré-condições a região valeparaibana oferecia em abundância e foram atrativos irresistíveis aos futuros cafeicultores, que naquele momento eram donos de pequenas e médias propriedades salpicadas pelo vale arqueano.

Mas restava ainda um empecilho à ocupação definitiva. Foi sempre só interesse do governo português a distribuição de sesmarias na região do Vale. No entanto, o habitante primitivo do lugar tornou-se uma grande barreira a esta ocupação, resistindo a invasão. Mas como no caso do pau-brasil e da cana do Nordeste, quando a possibilidade de enriquecimento era muito grande, o homem branco era capaz do impossível. Assim, como no caso da natureza, foi também aberta uma guerra de vida ou morte contra os índios do Vale. Em Vassouras, depois de violentos combates, os Coroados foram confinados numa aldeia em Valença,criando o Conservatório de Índios afastado-os do roteiro do café. Em Resende, conta o historiador da cidade, João Carneiro de Azevedo Maia, que os Puris como não conseguiram ser derrotados pelos brancos num primeiro embate, tiveram um fim triste. Pessoas contaminadas de varíola foram colocadas a banharem-se no rio em que os Puris tiravam água para beber. Parte da tribo, agora derrotada, partiu para a Serra da Mantiqueira, rumo a região de Visconde de Mauá e outras, foram confinados num aldeamento na freguesia de São Vicente Ferrer , criado o aldeamento reserva de São Luiz Beltrão para os Puris, pelo Capitão e Sargento-mor em comissão Joaquim Xavier Curado nomeado pelo Vice-Rei D. Luiz de Vasconcelos e Souza (1779-1790)hoje é a atual Vila da Fumaça. Segundo Bittencourt é na fazenda Canha Grande da então freguesia de São Vicente Ferrer que Antonio Bernardes Bahia, em terras da antiga aldeia dos Puris, Aldeia de São Luiz Beltrão,é que saíram as primeiras mudas de café que foram plantadas em terras da Província de São Paulo, mais exatamente em Bananal, onde Antonio Bernardes Bahia tinha também propriedade,sendo marco e polo irradiador as futuras plantações de café do Vale do Paraíba Paulista fazendo com que Bananal fosse pioneira no plantio da rubiácea em terra da Província Paulista.
Imagem mostra a luta entre os colonos e os índios - autor Rugendas
 Se o café é primeiro plantado nos arredores da cidade do Rio, na Floresta da Tijuca (conhecida na época como "Morro Pelado"), nos anos de 1770, ocupando depois a baixada Fluminense (região de Nova Iguaçu e Caxias), não será aí que ele mais prosperará como atividade econômica. Foi com a experiência de Resende e São João Marcos (cidade hoje não mais existente, pois está submersa na represa de Furnas), que outras localidades do Vale se interessaram em plantar cafés.
O café percorreu muitos caminhos, desde o início do século XIX, saindo do Rio, passando por Resende e S. João Marcos e sendo distribuindo para Valença, Barra Mansa, Vassouras, Piraí, Paraíba do Sul, passando também para a parte paulista do Vale (Bananal, Areias, S. José do Barreiro, Lorena, Silveiras) bem como para a parte mineira (Juiz de Fora, Cataguazes, Leopoldina, Carangola, até Visconde do Rio Branco). O antigo arraial de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova (que foi o nome primitivo de Resende), deu os seus sinais de vida lá pelos anos de 1747 e passou a se chamar Vila de Resende . As primeiras mudas de café, trazidas pelo padre Antonio do Couto Fonseca  da fazenda do holandês Hoppman  no Rio de Janeiro, foram plantadas, como experiência, na região de São Vicente Ferrer onde padre Couto tinha terras, depois do confinamento  dos índios Puris na aldeia de São Luiz Beltrão, próximo do mesmo lugar que começaram a plantar os cafezais como já dissemos. Os motivos que explicam o fato de ser Resende o centro irradiador do café pelo Vale do Paraíba podem ser muitos e, até hoje foram pouco estudados. Dentre estes estímulos prováveis, podemos citar: a) os aspectos geográficos da região do "Campo Alegre" (Resende), que apresentava uma boa baixada, e um solo propício e um clima favorável; b) a proximidade do Rio de Janeiro, que funcionaria como porto para a exportação; c) a atuação estimulante do Marquês do Lavradio, representante do governo de D. João VI que, a partir de 1772, dispensou o serviço militar os habitantes da região que plantassem café. Portanto, todos estes elementos uniram-se para criar as condições necessárias à chegada do café por estas paragens.
Em 1802, Resende já era exportadora de café e, a partir daí, a região sofreria uma grande mudança. O início do reinado do café começou mudando, aos poucos, toda a economia da região. Se até antes da chegada do café, os poucos habitantes do arraial e redondezas do "Campo Alegre", plantavam e beneficiavam um pouco de cana-de-açúcar, cuidavam de plantações de anil, criavam algum gado (vendendo alguma carne para Minas e Rio), tudo, a partir do século XIX, estaria sujeito à novidade cafeeira. Antigas fazendas de gado, engenhos de açúcar e cachaça, plantações de anil, passavam a plantar. Outras plantações como as de milho, feijão, arroz e mandioca passaram a alimentar as fazendas de café e as sedes dos núcleos urbanos dentro de um sistema de apoio e subsistência. Entretanto o café já impunha o seu poder quase absoluto como cultura comercial destinada a exportação.  Quando a Vila de Resende passa a ser considerada como cidade em 1848, a região resendense já se destacava como um dos maiores centros cafeicultores da província. Já estávamos no Segundo Império e o reinado de D. Pedro II esteve marcado pela expansão do café pelo Vale, salvando, progressiva e lentamente, o Império da falência financeira econômica que estava sujeito após a Independência. Ao falarmos em Império devemos sempre lembrar do café, num outro aspecto fundamental ter garantido para Império seu sustento político através das elites agrárias e na escravidão negra e indígena como força motriz daquilo chamaremos de economia agro-exportadora. Confirmada pela Constituição de 1824 e garantido o tráfico até 1850, possibilitando a compra maciça de mais braços para lavoura do café muito embora saibamos que muitos índios eram usados como piões trabalhadores das lides de algumas fazendas.
Região de Resende em 1824 - fonte: Arq.Público do Rio de Janeiro 
No entanto, apesar de toda essa euforia cafeicultora, a região de Resende nunca ocupará o lugar de maior produtora de café da Província do Rio de Janeiro.  Resende foi grande centro produtor, mas não o maior. Mesmo que no início do século XIX, seja a Vila de Resende o centro irradiador do café, espalhando-o por todo o Vale do Paraíba, será Vassouras, Valença, Paraíba do Sul, Barra Mansa e Piraí que possuirão as maiores fazendas e também a maior produção com mudas oriundas de nossa região. Uma das maneiras de compreender este fato é comparar os títulos de nobreza que foram distribuídos nestas outras localidades do Vale, com aqueles que foram cedidos à Resende. E o volume de pequenos e médios produtores face aos de outras regiões do vale.
Os chamados "barões do café"- grandes fazendeiros que eram ligados diretamente com o governo imperial do Rio de Janeiro - em Resende foram apenas quatro (Barão de Monte Verde, Barão de Bananal, Visconde do Salto e Barão de Bela Vista - que depois conseguiu o título de Visconde de Aguiar Toledo) ; enquanto isso, em Vassouras, por exemplo, foram dezenas de fazendeiros que obtiveram títulos de barões, condes, marqueses.
Por outro lado, se a população de Resende (em 1876) era superior a de Barra Mansa, S. João Marcos, Piraí, Vassouras, Valença, no entanto os escravos eram muito poucos, apenas nove mil.  Segundo Lamego, Joaquim Souza Breves - o chamado "rei do café” - era grande proprietário de mais de 25 fazendas distribuídas por todo o Vale (que morava no Palácio da Grama em S. João Marcos), produzia 90 mil arrobas de café numa fazenda sua de Arrozal e em outra de S. João Marcos, 60 mil arrobas, enquanto que na fazenda de S. Vicente Ferrer (Fumaça) produzia 10 mil arrobas, Breves tinha segundo estudos cerca de 6000 escravos em seu plantel distribuído pelo vale.
Assim vários aspectos conjunturais formam os motivos  que explicam as razões de Resende não ter alcançado a mesma projeção de Vassouras, Valença ou mesmo Barra Mansa no que concerne o glamour dos Baronato . Por um lado, as terras no município foram as primeiras a dar sinais de cansaço, porque em Resende o café chegou primeiro; por outro lado o café era primeiro levado de barca pelo Rio Paraíba até Barra do Piraí, para então ser conduzido até o porto em lombo de burro, o que encarecia o preço do transporte; ou ainda após 1850 com a extinção do tráfico, a dificuldade de obter escravos mesmo ainda que os pequenos e médios produtores não utilizassem maciçamente deste recurso, isto lhes trouxeram dificuldades; e também citamos a praga que deu nos cafezais em 1858 que destruiu grande parte das lavouras. 
Imagem de um aldeamento indígena no modelo de São Luiz Beltrão.
Ainda assim o café será produzido em Resende até o século XX e dentro basicamente das pequenas e médias propriedades como originalmente, mas não mais em grande escala de valor, mas em qualidade dos grãos sendo nossas produções  premiadas em várias exposições internacionais onde o café era apresentado. Quanto aos índios estes não sumiram foram se agregando as atividades do campo dentro das suas possibilidades que a economia lhes proporcionou para sobreviver ao modelo imposto pelo homem branco colonizador das terras que outrora foram deles.

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1- Economista,professor universitário,Mestre em História Social membro da Academia Resendense de História,da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do IEV- Instituto de Estudados Valeparaibanos.