sábado, 24 de maio de 2014

Transporte de Café pelo Rio Paraíba do Sul no século XIX: de Resende à Barra do Pirahy


Julio César Fidelis Soares[1]


Palavras-chave: Transporte; Café; Economia
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Ponto importante para iniciarmos este estudo é ir buscar as origens do antigo arraial de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova (que foi o nome primitivo de Resende), e que deu os seus sinais de vida lá pelos anos de 1747 e passou a se chamar Vila de Resende [2].
            As primeiras mudas de café trazidas pelo padre Couto[3] da fazenda do holandês Hoppman no Rio de Janeiro, foram plantadas como experiência na região de São Vicente Ferrer (atual vila da Fumaça), mais precisamente na Fazenda Monte Alegre, depois de confinar os índios Puris na aldeia de São Luiz Beltrão, próximo do mesmo lugar que começaram a plantar os cafezais.
            Os motivos que explicam o fato de ser Resende o centro irradiador do café pelo Vale do Paraíba podem ser muitos e, até hoje foram pouco estudados. Dentre esses estímulos prováveis, podemos citar: a) os aspectos geográficos da região do "Campo Alegre" (Resende), que apresentava uma boa baixada, um solo propício e um clima favorável; b) a proximidade do Rio de Janeiro, que funcionaria como porto para a exportação; c) a atuação estimulante do Marquês do Lavradio, representante do governo de D. João VI que, a partir de 1772, dispensou do serviço militar os habitantes da região que plantassem café. Portanto, todos esses elementos uniram-se para criar as condições necessárias à chegada do café por essas paragens.
            Em 1802, Resende já era exportadora de café e, a partir daí, a região sofreria uma grande mudança. O início do reinado do café começou mudando, aos poucos, toda a economia da região. Se até antes da chegada do café, os poucos habitantes do arraial e redondezas do "Campo Alegre" plantavam e beneficiavam de cana-de-açúcar, cuidavam de plantações de anil, criavam algum gado (vendendo carne para Minas e Rio), tudo, a partir do século XIX, estaria sujeito à novidade cafeeira. Antigas fazendas de gado, engenhos de açúcar e cachaça, plantações de anil, passavam a plantar. Outras plantações como as de milho, feijão, arroz e mandioca passaram a alimentar as fazendas de café e as sedes dos núcleos urbanos dentro de um sistema de apoio e subsistência. Entretanto o café já impunha o seu poder quase absoluto como cultura comercial destinada à exportação.
            Quando a Vila de Resende passa a ser considerada como cidade em 1848 [4], a região resendense já se destacava como um dos maiores centros cafeicultores da província. Já estávamos no Segundo Império e o reinado de D. Pedro II esteve marcado pela expansão do café pelo Vale, salvando, progressiva e lentamente, o Império da falência financeira econômica que estava sujeito após a Independência. Ao falarmos em Império devemos sempre nos lembrar do café, em um outro aspecto fundamental, ter garantido para Império seu sustento político através das elites agrárias e na escravidão negra como força motriz da economia agroexportadora. Confirmada pela Constituição de 1824, garantindo o tráfico até 1850 e possibilitando a compra maciça de mais braços para lavoura do café.
            No entanto, apesar de toda essa euforia cafeicultora, a região de Resende nunca ocupará o lugar de maior produtora de café da Província do Rio de Janeiro.  Resende foi grande centro produtor, mas não o maior. Mesmo que no início do século XIX, seja a Vila de Resende o centro irradiador do café, espalhando-o por todo o Vale do Paraíba, será Vassouras, Valença, Paraíba do Sul, Barra Mansa e Piraí que possuirão as maiores fazendas e também a maior produção.
            Uma das maneiras de compreender este fato é comparar o volume de pequenos e médios produtores face aos de outras regiões do vale.





Estudo quantitativos referentes ao número cafeicultores listados no porto
de Angra dos Reis 1868[5]

Fonte: Nosso estudo apud Pereira, Waldick, Cana, café & laranja: historia econômica de Nova Iguaçu. Rio de Janeiro 1977.Anexos

Porém, sabemos que neste mundo comercial do café Resende era uma praça agitada fazendo nos primórdios o abastecimento da corte através das rotas dos tropeiros que se dirigiam para as Minas Gerais vindo do litoral e vice-versa. Nos primeiros momentos o transporte do café de nossa região era feito através do carregamento pelos escravos que iam a pé pelas trilhas tropeiras, mais adiante passou-se a usar o carro de boi que embora lento carregava mais sacas. Logo o café também se mostrou um produto lucrativo como carga para os tropeiros e aí tínhamos tropas e mais tropas carregando o ouro verde da região do Vale do Paraíba.
Nesse ambiente da produção cafeeira que surge a ideia de transportar mais café até o porto de forma talvez mais rápida em grande quantidade. Buscamos o relato de João Maia que referencia em sua obra a primeira tentativa de transporte fluvial pelo Rio Paraíba carregando café:
“Chegando a Estrada de Ferro de Pedro II à Barra do Pirahy, José de Souza Azevedo, natural da cidade de Barra Mansa, emprehendeu pela primeira vez a navegação do rio Parahyba em um barco de fundo raso, à semelhança dos que sulcam o rio Douro, com onze metros de popa à prôa e três de largura; partindo d´aquella cidade a 20 de Janeiro de 1860...” [6]

Fomos então buscar visualizar o que foi descrito por Maia no trecho citado acima e em nossas pesquisas iconográficas chegamos à imagem que apresentaremos abaixo. Segundo o que pesquisamos o barco de fundo raso do D`ouro é denominado barco Rabelo é um barco de espadela[7] - ramo que governa o barco e está sujeito a um eixo tornel. Possui, ainda, dois remos de cada lado e fundo chato - o sagro - constituído por um número ímpar de tábuas. Tem forma lenticular. Há autores que defende uma origem Sueva, outros Visigótico ou até Viking[8]. Transportava vinho, lenha, madeira, carvão, fruta, palha, batata e outras mercadorias; ou seja, é tradicionalmente um barco de transporte de mercadorias de vias fluviais.

Fig. 1 – Imagem de Barcos Rabelo às margens do Rio D´Ouro, Portugal.

João Maia relata ainda que em uma publicação do Astro Resendense de 15 de agosto de 1868 foi publicado um artigo assinado pelo Dr. Joaquim dos Remédios Monteiro elogiando o ato venturoso de José de Souza.  Em outro trecho de sua obra ele nos diz que em Resende um espanhol de nome João Vasques foi o primeiro que construiu e pôs a navegar no rio um barco.  Estes barco segundo João Maia podiam transportar de 700 até 1000 arrobas e que chegaram a mais de 60 o número de embarcações que faziam o transporte pelo rio Paraíba desde Resende até como ele diz “Barra do Pirahy”.
 





Fig.2 – Pintura ilustrando transporte por barcas,“Partida de uma monção” - Almeida Júnior. Batelão no século XIX. A ilustração nos traz logo a lembrança das ribeiras do velho Paraíba do Sul.

            Assim ao pesquisarmos os registros sobre a navegação no Rio Paraíba partindo da praça cafeeira de Resende, m Alferes Joaquim Rodrigues Antunes.eres Francisco da Rocha Bernardes e o tambde Jochegamos ao registro do nome de João Vasques como proprietário de Barcos no Rio Paraíba, tal referência consta do Almanack Laemmert do ano se 1863, onde apresenta mais 15 outros nomes como proprietários de embarcações. Dentre esses chamou-nos a atenção a vinculação da propriedade de embarcações com “casa de commissão de café” e “Productos de Minas” cujos proprietários citados são: Antonio José da Costa, Francisco Gomes Leal, Alferes Francisco da Rocha Bernardes e o também Alferes Joaquim Rodrigues Antunes. Um outro aspecto que devemos observar é que esse tipo de meio de transporte veio baixar os custos da economia de abastecimento entre nossas cidades do Vale do Paraíba dando também velocidade no suprimento de gêneros e no abastecimento da região e da corte com produtos vindo das minas.
Segundo ainda João Maia, até o ano 1873, quando chega a Resende a Estrada de Ferro D. Pedro II, todo o transporte de carregamento era feito por via fluvial através dos já famosos barcos do Rio Paraíba. Ele nos brinda ainda com a seguinte comparação do ponto de vista econômico:

“...o preço do frete, que para os portos de Jurumerim e Ariró importava 2$ por arroba, além de 5 a 6 dias de demora na viagem das tropas, ao passo que pelo rio o trajecto se fazia até Pirahy em 24 horas, e o frete não excedia de 400 rs por arroba.” [9]

Entretanto, sabemos que ninguém para ou parou o progresso e em 9 de agosto de 1864 chega a Barra do Piraí a primeira composição com passageiros. Eram os ecos do progresso chegando ao porto das barcas de café. Então, pelos idos de 1869 um proprietário de terras e barcos, o Alferes Joaquim Rodrigues Antunes, resolveu bancar em suas terras uma terraplanagem que poderia servir bem para um traçado de passagem de uma linha ferroviária. Cedeu ele ainda outra parte de suas propriedades para construção de uma estação e um pátio de manobras. E assim segundo o Cel. Alfredo Sodré: “o certo é que em fevereiro de 1873, a primeira locomotiva a Princesa Imperial – alcançava, silvando estrepitosamente, a estação de Resende, em Campos Elíseos”.[10] Fato que acabou por constituir uma lenta e certa paralisação da atividade do transporte fluvial do rio Paraíba do Sul. Em nossas pesquisas vimos que nos primeiros anos da década de 60 do século XIX é que se constituiu o período áureo deste tipo de atividade econômica que apoiava a produção cafeeira. O que apresentamos através do gráfico abaixo construído a partir de nosso levantamento.

Gráfico 1- fonte: Almanaque Laemmert – 1862 até 1866

A importância da navegação fica patente e é reforçada a partir de um dos documentos da Câmara Municipal registrado em ata do dia 27 de novembro de 1861 onde apresenta a importância deste meio de transporte para economia cafeeira de Resende bem como ainda a intenção de melhorias no desenvolvimento de tal meio. Assim apresentamos abaixo a transcrição de um trecho da ata.

[...] com a falta do nosso primeiro ramo de exportação o café – faltando este falta o dinheiro:não há neste município industria alguma ,ou fábricas dignas de menção. Quanto as medidas para nosso desenvolvimento,entende a Comissão ,que a primeira e a mais vital necessidade deste município é o melhoramento de nossa navegação fluvial: o rio Parahiba ,pois onde ella é feita, tem algumas cachoeiras e passos difficeis e perigosos,que demandão promptos serviços para facilitar a navegação;não obstante este incaminhamentos ,já a exportação e importação vai sendo quase toda feita pelo Parahiba , por meio de barcas,o que he de incontestável vantagem. Com qualquer melhoramento no Parahiba quebrando-se algumas pedras, recuando outras e limpando-se huma das margens não só será mais fácil e rápida a navegação, como ainda menos despendiosa e sobretudo menos perigosa.[...][i] 

Outro elemento que corrobora quão foi importante a navegação, achamos no editorial do jornal Astro Rezendense[ii] dizendo que era uma realidade a chegada da ferrovia, mesmo porque já se tinha a autorização para se implementar um braço da Dom Pedro II a Estrada de Ferro de Rezende a Areas. Mas alertava o editorial que a atividade de navegação fluvial empregava trezentos braço e alimentava mil e quinhentos indivíduos e a partir do aparecimento das ferrovias tal atividade estava desaparecendo o que causou um grande golpe nos trabalhadores que o editor chamou de “população fluctuante”. Em outro aspecto o editorial vai mais longe dizendo que Resende era um centro de parada e transito das pessoas que iam e viam da corte para interior e vice versa e que ao findar esta atividade que era complementar na estrutura de transportes fez cessar completamente tal atividade gerando um golpe que o autor classifica como “mortal” para economia da região, gerando do ponto de vista imobiliário queda de aluguel e desvalorização dos imóveis.
Concluímos dizendo que já em 1872 o Astro Rezendense dava os prenúncios do final da atividade de navegação e fazia um severa crítica mostrando que a ferrovia não havia trazido o barateamento dos fretes como era o esperado para economia local, muito pelo contrario, talvez pela rapidez  passou a cobrar valores não tão vantajosos e ainda desmobilizou muitos setores que viviam da integração do transporte terrestre com o fluvial.


 Fig.3 - O Astro Resendense,13 de outurbro de 1872,acervo Arquivo Histórico de Resende.


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Figura 1: Barco do Douro (rabelo). Disponível em: <http://cidadesurpreendente.blogspot.com/2005/08/actualizada-arquitectura-do-rabelo-com_30.html>.
JUNIOR, Almeida. Batelão século XIX. Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/_kYGOwN7KoPI/R0cQEyUi5II/AAAAAAAAAXM/1zoxO7P0h6E/s400/moncoes004.jpg>.



[1] Mestre em História Social, Professor do Curso de Ciências Econômicas das Faculdades Dom Bosco, cadeiras de História Econômica, Formação Econômica do Brasil, História do Pensamento Econômico e Desenvolvimento Econômico. Professor do Centro Universitário Volta Redonda, Curso de Serviço Social.
[2] Em homenagem a D. José Luís de Castro, 2° Conde de Resende, que foi Vice-Rei do Brasil por onze anos, de 9 de maio de 1790 a 14 de outubro de 1801,  na mesma ocasião em que o café começa a ser plantado por aqui em 1801.
[3] Padre Antônio Couto da Fonseca, proprietário da "Fazenda do Mendanha" cujo nome se deve ao primeiro proprietário e poderoso senhor de escravos e grande produtor de açúcar e café, Luiz Vieira Mendanha, passou por mãos sucessivas até ser comprada por Padre Couto, que foi o grande protetor do sábio Freire Alemão, que iniciou sua vida como sacristão, na capela da Fazenda do Mendanha, onde aprendeu os primeiros rudimentos de latim com Padre Couto.
[4] Elevação da Vila à Cidade de Rezende: Decreto 438 de 12/07/1848 com a promulgação pela Assembléia Provincial no dia 06/07/1848. A resolução foi sancionada a 12/07/1848, pelo Chefe do Governo Provincial (Visconde de Barbacena). Foi publicada na imprensa oficial no dia 13/07/1848. Fonte: acervo documentação da Câmara Municipal de Resende – 1848.
[5] Este quadro foi composto e ordenado levando em consideração a produção apresenta por cada cafeicultor junto à mesa coletora conforme apontado pelo pesquisador Waldick  Pereira, a partir do qual fizemos a classificação e tipificação em pequenos, médios e grandes produtores.
[6] MAIA, João Carneiro de Azevedo: Notícias históricas e estatísticas do município de Resende desde a sua fundação.  Rio de Janeiro, 1891[S/Ed] p. 307.
[7] Remo comprido e largo que faz às vezes de leme nos barcos ou azurrachas do Douro.
[8] Barco do Rio Douro – História. Disponível em <www.geocities.com/j.aldeia/barcos/barcosriodouro.htm >. Acesso em: 4 maio 2009.
[9] MAIA, João Carneiro de Azevedo. Notícias históricas e estatísticas do município de Resende desde a sua fundação. Rio de Janeiro, 1891 [s/Ed.]. p.308.
[10] SODRÉ, Alfredo. In: Resende, os cem anos da cidade. Jornalista, Maçon,Coronel da Guarda Nacional, foi editor do jornal “O Tymburibá”, redator do jornal “A Lira”, primeiro prefeito eleito de Resende em 1922,Tabelião do 1º oficio de notas e  Provedor da Santa Casa de Misericórdia.Condecorado pelo Grão Mestre Geral da Ordem com Medalha de Ouro de Benemérito da Ordem.(é1865U1955).




[i] Ata Câmara Municipal de Resende,27 de novembro de 1861-Arquivo Histórico Municipal
[ii] Jornal Astro Resendense de 15 de junho de 1873 ed.N.4 Anno VIII - Arquivo Histórico Municipal

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O florete e o Imperador



Julio Cesar Fidelis Soares**
**Economista,Mestre em História Social – Professor de História do Pensamento Econômico,História Econômica Geral,Formação Econômica do Brasil , Desenvolvimento Econômico. Docente do Centro Universitário Geraldo Di Biasi - Volta Redonda e Barra do Piraí e CETEP ResendeRJ FAETEC.
Membro da Academia Resendense de História,da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do Instituto de Estudos Valeparaibanos.

Nosso texto relata o episódio da visita do Imperador D. Pedro II que em 16 de outubro de 1874, que em visita a Cidade de Resende concede uma série de distinções a membros da comunidade local bem como a Loja Maçônica local. Nosso estudo vai do interesse em reforçar pesquisas anteriores, que mostram os laços de poder e a interação da cidade de Resende, através de sua elite com o poder imperial. Ao ponto do monarca vir prestigiar a sociedade resendense e agraciá-la, através de sua Loja Maçônica, com uma honraria do cerimonial da Corte, como forma de reforço das relações de poder vigente à época.
Símbolos do Poder:
As insígnias englobam objetos usados como sinais distintos, individuais ou coletivos que distinguem funções, postos, comandos e, sobretudo ligações de poder com as instituições de mando de uma sociedade.  No caso da nobreza brasileira do segundo reinado tais insígnias refletem a preocupação em valorizar a Nação bem como os dignatários ligados às instituições que formavam o poder constituído.  Assim, além das condecorações, direitos de uso de brasões, estandartes, flâmulas e vestimentas especiais, existiram a praxe da distinção com armas brancas cerimoniais como espadins e espadas à fidalguia da corte brasileira.

Fig.1- Serviçal da Casa Real acompanhado de sua escrava, nota-se claramente na bagagem carregada pela escrava a Alabarda e a Espada de Corte de seu dono e senhor. Imagem produzida por Jean B. Debret - “Aspectos da  Corte”.
A Resende de 1874
Segundo o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial Laemmert, o município tinha uma população de 25.000 habitantes divididos por suas freguesias de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre, São Jose do Campo Bello, Senhor Bom Jesus do Ribeirão de Sant`Anna, Santo Antonio da Vargem Grande e São Vicente Ferrer.
“Sobre um terreno notavelmente accidentado, cujo solo em sua maxima parte se pode chamar argilo-ferruginoso, o município de Rezende produz o melhor café , excellente canna de assuçar, cereaes e legumes de toda espécie.  Nas planuras do Itatiaya abundão as pastagens nativas, offerecendo assim recurso naturaes para a criação de toda espécie de gado; algumas fructas da Europa como maçã , o marmelo [...] .” (1)
 (1)Almanak Laemmert, edição 1874, Município de Rezende, p.125.
É importante destacarmos também que em outro trecho do mesmo almanaque ele nos traz notícia do plantio de parreiras cuja produção era abundante, e que houve algumas tentativas de produção de vinho, que se assemelhava ao do Rheno só que muito mais aromático segundo os editores do almanaque.
Figura 2 . Aspectos de Resende na Década de 1920 do século XX ainda guardando muito do século XIX.

O Casario
Ao estudarmos relatos sobre a cidade vimos que muitas casas eram remanescentes do período inicial da constituição da Vila de N. S. da Conceição do Campo Alegre, pois nos foi relatadas da seguinte forma pelo autor do almanaque “[...] bem pouco sólidas, pelo uso ainda em voga dos antigos e condemnados baldrames de madeira[...]”(2) .
(2)Idem, Almanak Laemmert, edição 1874, Município de Rezende.


Fig. 3 e 4 . imagens de Resende no século XIX, Casario na altura de antiga Rua Direito hoje XV de Novembro e Largo do Pelourinho hoje Praça do Centenário.

O Fato:
No dia 16 de Outubro de 1874, quando as chuvas são quase como certas em Resende, veio a notícia de que havia chegado à estação da ferrovia um comboio com vagão especial trazendo S. M. Imperial Dom Pedro II e sua comitiva. Momento este que ficou conhecido muito mais pela situação em que se encontrou a Comitiva Imperial ao encalhar-se num atoleiro que se fez com as chuvas na então Rua do Presidente, hoje Av. Albino de Almeida.
A comitiva de Sua Majestade fez inúmeras visitas, ao que parece que foi a oportunidade de conhecer o pai da poetisa Narcisa Amália, Professor Jacome Campos, que por relevantes serviços prestados foi agraciado com a comenda da Ordem de Cristo. Em outra oportunidade, o Imperador, que era um admirador da poetisa, quis cumprimentar a jovem, que morava nos fundos de uma padaria de propriedade de seu marido  na Rua da Misericórdia, localizada no Bairro Lavapés onde conforme o Almanak Laemmert  de 1874 existia um dos mais notáveis edifícios públicos, a Santa Casa de Misericórdia – “...vasto edifício, que apenas a terça parte acha-se em serviço.”
Figura 5 . Bairro Lavapés e sua famosa Rua da Misericórdia hoje R,Eduardo Cotrim. 

Sabedor da importância política, econômica e cultural de Resende é que pensamos que D. Pedro II resolve conhecer a Loja Maçônica  Lealdade e Brio que congregava os elementos de maior influência e expressão não só da sociedade local, bem como da região cafeeira do Vale do Médio Paraíba. Nesta época a já famosa Lealdade e Brio, localizada “ao Valle de Rezende” e pertencente ao Oriente unido do Brazil, tinha como dirigentes Dr. Jose Domingues dos Santos Junior (Vereador), Venerável Mestre; Dr. João Leme da Silva, primeiro Vigilante; Antonio Fernandes Carneiro Braga, segundo Vigilante; Flausino Jose Corrêa, Orador; e Sr. Alfredo Baptista da Silva (Escrevente Juramentado), Secretário. Formada a Comissão de Recepção a S. M. Imperial, a Lealdade e Brio preparou seção solene e festiva para receber a mais alta autoridade que jamais fora visitar autoridade que embora não pertencesse a ordem era “sobrinho ilustre” no jargão maçônico, filho do mais famoso Grão-Mestre Geral da Ordem, D. Pedro I.




Fig.6. Foto de D.Pedro II em 1876 dois anos depois de sua visita a Resende,acervo museu Imperial de Petrópolis.





Num clima de euforia, festiva e solene é que se dá a visita do Imperador Pedro II à Loja Maçônica Lealdade e Brio, fato ímpar não só no Vale do Paraíba como um todo e até mesmo na Corte, pois pelo que se sabe, embora vivesse ladeado por maçons das mais altas cepas como seus membros de governo nunca ele foi por vontade própria à sede da Maçonaria no Grande Oriente do Brasil localizado na Rua do Lavradio – o famoso “Palácio do Lavradio”. Entretanto, estando em Resende, manifestou a vontade de conhecer a Loja Maçônica e seus membros, por saber que tais componentes eram a expressão do poder em toda a Região do Vale, pois as lojas maçônicas foram grandes centros de discussões e de tomada de decisões, a respeito da vida política regional e nacional.


Fig.7 – imagem de punhos de floretes semelhantes ao presenteado por D. Pedro II  à  Loja Maçônica  Lealdade de Brio de Resende, província do Rio de Janeiro em 1874.


Fig.8 – imagem do punho de florete presenteado por D. Pedro II  à  Loja Maçônica  Lealdade de Brio de Resende, província do Rio de Janeiro em 1874.


O mais interessante nesta história é que poucas instituições receberam tal distinção do Imperador, uma que me recordo é a Irmandade de N. S. do Pilar de Ouro Preto; pois lá vi o registro de visita do Imperador e o espadim que presenteou a Irmandade e seus membros, o importante é notar que não era usual dar tal honraria a instituições, pois esta distinção era voltada a pessoas físicas que as recebiam como marca do título recebido do monarca. O segundo presente vejo como outro sinal de apreço com valor simbólico super interessante, ele presenteia a Loja com um sabre da sua Guarda de Honra, ou seja, de sua guarda pessoal. Fato que não me espanta, pois D. Pedro II, como estudioso e historiador que era, sabia do valor de peças simbólicas dentro da estrutura da maçonaria e também sabia do impacto político que tal ato acarretaria em toda a região, ainda mais em Resende que era base de um forte grupamento da Guarda Nacional e que tinha grande influência política nas figuras de seu Comandante Superior Coronel Fabiano Pereira Barreto, do Barão de Bananal Tenente Coronel Luiz da Rocha Miranda, comandante do 11º Corpo de Cavalaria de Resende, e do Capitão da GN Domingos Gomes Jardim.
Referências Bibliográficas.
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