segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Os Dragões da Imperial Guarda de Honra um estudo do uniforme histórico


por Julio Cesar Fidelis Soares[1]
O presente estudo vem da curiosidade investigativa pelo entendimento das origens das unidades militares denominadas de Dragões, unidades estas dentro do senso comum sempre ligada a arma de cavalaria dos exércitos das quais fazem partes.  Assim neste trabalho abordaremos o tema num primeiro momento falando das origens de tais unidades ao longo da História Militar, num segundo momento abordaremos sobre as unidades de Dragões na História militar brasileira do período colonial até os dias atuais, apresentando principalmente aquilo que mais lhe são particulares os uniformes.
Na história o que sabemos é que o mais remoto do que viria a ser o dragão tenha sido o dímaco[2] da antiga Macedónia. O dímaco era um tipo de soldado de cavalaria pesada que também lutava a pé quando era necessário.
O termo "dragão" passou a designar um tipo de soldado e segundo estudos apareceu em meados do século XVI para se referir aos membros do corpo de arcabuzeiros que combatiam a pé e se deslocavam a cavalo, criados em 1554 pelo marechal de França Carlos I de Cossé, conde de Brissac [3] para servir no Exército do Piemonte.  Uma outra versão para a gênese da denominação diz que  pode referir-se aos supostos dragões contidos nos estandartes das tropas do conde de Brissac ou a uma espécie arcabuz curto ou carabina usada pelas mesmas e que era então chamada "dragão". A última hipótese do termo se refere a ter originado do fato de um soldado de infantaria a galope com a sua casaca solta e a mecha a arder ao vento se parecia com um dragão.
O Rei Gustavo II Adolfo da Suécia, no início do século XVII, introduziu os dragões no seu Exército, dotou-os de um conjunto multifuncional de armas que incluía um sabre, um machado e um mosquete. Este modelo de armamento para os dragões foi a seguir imitado por muitos dos restantes exércitos da Europa. Estas primeiras tropas de dragões não eram ainda consideradas parte da cavalaria, mas sim infantaria montada. Assim, as unidades de dragões mantinham os atributos e caraterísticas da infantaria, por exemplo, usando tambores em vez dos clarins e trombetas típicos da cavalaria e sendo enquadradas por oficiais de infantaria. Nesta época, os dragões eram usados para uma série de missões militares que incluíam o estabelecimento de piquetes e postos avançados, a defesa de pontes ou desfiladeiros na vanguarda ou retaguarda do corpo principal do exército e a disponibilização de mosqueteiros desmontados para apoio à cavalaria de linha. Por outro lado, a flexibilidade que os dragões tinham como infantaria montada tornava-os arma ideal para servir como uma espécie de gendarmaria em missões de segurança interna, incluindo a perseguição de contrabandistas, o patrulhamento das estradas e a repressão de desordens públicas. Sendo providos de cavalos de qualidade inferior e de equipamento mais básico, os regimentos de dragões eram muito mais fáceis de levantar e manter que as dispendiosas unidades de cavalaria de linha.[4]
Contudo, os dragões estavam em desvantagem quando enfrentavam a genuína cavalaria. Assim, procuraram sempre obter melhores condições em termos de equitação, armamento e estatuto social. Na transição do século XVIII para o XIX, na maioria dos exércitos europeus, os dragões tinham evoluído já de tropas de infantaria montada para verdadeiras tropas cavalaria. Nesta altura, as antigas missões de exploração e funções de piquete anteriormente atribuídas aos dragões tinham sido já assumidas pelos hussardos, caçadores a cavalo e outras unidades de cavalaria ligeira em exércitos como os da Áustria, França e Prússia. Os exércitos de Espanha e Portugal chegam mesmo a abolir os dragões transformando-os em regimentos de cavalaria de linha. Inversamente, com o objetivo de reduzir os seus gastos militares, o Exército Britânico transforma todos os seus regimentos de cavalaria em unidades de dragões, que, no entanto desempenham funções de cavalaria de linha. Uma exceção foi o Exército da Rússia, onde - devido à existência dos cossacos - os dragões mantiveram as suas missões originais até mais tarde do que a generalidade dos restantes exércitos.
Durante as Guerras Napoleónicas, os dragões assumiram geralmente uma função de cavalaria média, intermédia entre os couraceiros (cavalaria pesada) e a cavalaria ligeira. Os dragões montavam cavalos maiores que os da cavalaria ligeira e estavam armados com espadas direitas em vez dos sabres curvos daquela. O Imperador Napoleão formava frequentemente divisões completas de dragões com os seus 20 ou 30 regimentos daquele tipo, usando-as como cavalaria de choque para quebrar a resistência do inimigo. Em 1809, os dragões franceses obtiveram sucessos notáveis contra o Exército Espanhol nas batalhas de Ocana e de Alba de Tormes. Por seu lado, os dragões pesados britânicos executaram cargas devastadoras contra a infantaria francesa nas batalhas de Salamanca em 1812 e de Waterloo em 1815.[5]
Ao iniciar-se a Primeira Guerra Mundial em 1914 ainda existiam regimentos de dragões nos exércitos Alemão, Austro-Húngaro, Britânico, Dinamarquês, Espanhol, Francês, Norueguês, Peruano, Russo e Sueco. Os seus uniformes variavam consideravelmente, faltando-lhe as caraterísticas específicas dos uniformes dos regimentos de hussardos[6] ou de lanceiros. Ocasionalmente, ainda recordavam as suas origens como infantaria montada. Assim, os regimentos de dragões alemães usavam o mesmo modelo de pickelhaube (capacete de espigão) da infantaria e os dragões britânicos usavam fardas escarlates. Contudo, em todos os restantes aspectos, os dragões tinham já adotado as mesmas táticas, funções e equipamento dos restantes ramos da cavalaria, sendo a sua distinção um título meramente tradicional.
No Brasil os Dragões iniciam sua jornada histórica a partir do período Colonial desempenhando missões de ação rápida e de controle de estradas do Brasil Colônia.
Segundo os registros históricos é em 1719 que chegam a Minas Gerais duas companhias de dragões enviadas de Lisboa, que irão constituir os famosos Dragões Reais de Minas unidade em que serviu o Alferes Joaquim Jose da Silva Xavier. Tal unidade tinha como missão principal a garantia da segurança dos distritos mineradores e seus caminhos, funcionando como uma espécie de polícia militar montada. Da reunião das três companhias de dragões que tinham sido enviadas de Portugal para Minas Gerais, as duas primeiras vieram em 1719 e a terceira em 1729. O Regimento de Dragões de Minas formado pelas duas companhias tinham como missão principal, a da garantia da lei e da ordem nas atividades de exploração do ouro e a fiscalização da cobrança de impostos. Já em 1729, chega da Metrópole Portuguesa, uma terceira companhia de dragões, que acaba por ser enviada para participar nas operações militares de defesa do Sul do Brasil. Esta companhia foi acrescida de oficiais dragões adicionais vindos diretamente de Portugal. Sendo o núcleo de um regimento de dragões a ser formado na Colônia do Sacramento. Esse regimento irá ser formado em 1736, mas como Regimento de Dragões do Rio Pardo. Com base em efetivos dos Dragões Reais de Minas são também criadas às companhias de dragões de Cuiabá e de Goiás.
Com os eventos da Independência do Brasil e da reorganização do novo Exército Brasileiro em 1825 os dragões Coloniais são extintos. Os antigos dragões de Minas, do Rio Pardo, de Montevidéu e da União tornam-se, respectivamente, o 2º, 5º, 6º e 7º regimentos de cavalaria de 1ª linha. O antigo Esquadrão de Cavalaria da Guarda do Vice-Rei foi transformado em 1º Regimento de Cavalaria do Exército por dom João VI em 1808 tomando nova designação como 1º Regimento de Cavalaria de Primeira Linha. Com a Independência, é criada também a Imperial Guarda de Honra dos Mosqueteiros de dom Pedro I (1822-1831) núcleo primordial para o Regimento de Dragões. Segundo o Dr. Gustavo Barroso sendo proclamada a Independência, recebeu o imperador o auxilio de algumas províncias, em primeiro lugar temos a de São Paulo ,Rio de Janeiro e Minas Gerais que serviram de base para criação da unidade que recebeu a denominação de Imperial Guarda de Honra, criada por decreto de 1º de Dezembro de 1822.
A unidade segundo Barroso foi formada de um estado-maior e três esquadrões com 158 elementos cada um, sendo que deste o 1ª Esquadrão se formou na Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté importante núcleo colonial e centro dispersor das Bandeiras. O segundo esquadrão se formou na Corte e o terceiro em São João D’El Rei província de Minas Gerais. E nos diz mais que a Imperial Guarda de Honra foi extinta em 1832 com abdicação do Imperador, mas seus membros foram autorizados a usarem seus uniformes.  Barroso relata em sua obra que por ocasião da necessidade de atender o imperador a Província de São Paulo adotou um uniforme branco com detalhes vermelho cores tradicionais da cavalaria em suas tradições, sobre a cobertura desta  época ele nos relata que não se conhece o uso de capacete antes da situação da independência. Entretanto nos aventa a hipótese do uso do modelo bávaro que era de uso da cavalaria das milícias.

Fig.1 Bicórneo Bávaro em uso nas milícias no Brasil colônia nas primeiras décadas do século XVX. (Fonte: Barroso,Gustavo,1922)
O primeiro tipo de cobertura era um capacete metálico provavelmente em folhas de latão dourado sobrepostos com escamas de dragão, com um dragão na cimeira representando a casa de Bragança, da cimeira sobressai à crina.


Fig.2 Capacete da Imperial Guarda de Honra 1825 – fonte: MHN Rio de Janeiro.
Quando do segundo casamento do Imperador, Barroso nos diz que Debret cria uma nova cobertura para os Dragões era de couro com ferragens douradas e três círculos concêntricos, dois amarelos e um verde, como tope substituído, em 1831, por uma  estrela de ouro em campo verde[7].  Debret pinta, na cimeira do capacete de couro com virolas e reforços de latão o dragão alado do primeiro modelo que se mantém as crinas.

Fig.3 Desenho de J.B.Debret do segundo uniforme da Imperial Guarda de Honra, por ocasião do casamento do imperador com Dona Amélia de Leuchtenberg(1829).

Quanto ao uniforme era branco com detalhes, virolas, em vermelho, as dragonas eram douradas em formato de escamas, correames ou talabartes negros trazendo a vista à tradição dos dragões vienenses, talvez uma homenagem a casa real austríaca de Habsburgo.


Fig.4 Corneteiro do Regimento de Dragões do Grão Duque Toscana. 1813-1815.
Infelizmente a indumentária usada hoje lembra, mas não é cópia fiel nem ao primeiro, nem ao segundo uniforme criado nos inicio do século dezenove, sem falarmos nas dragonas de praça e de oficiais, nas chapas para correntes dos escovilhões das pistolas e mosquetes bem como chapas de talim. Nas buscas de como deveriam ser em um primeiro momento o uniforme chegamos a duas imagens uma remetendo ao corpo de milícia paulista e outro a uma imagem do arquivo da biblioteca pública de Nova York que mostra um croqui do uniforma da imperial guarda de honra, observem na imagem que existem anotações de época dando conta do que se refere à imagem.

Fig.5 Nesta figura vemos um soldado do Corpo de Milícias Úteis em seu uniforme Branco e Vermelho usado nas primeiras décadas do século XIX e usando o chapéu Bicórneo Bávaro. Fonte: Barroso,Gustavo(1922)


Fig.6 Imagem da Guarda de Honra do Imperador  do Brasil 1825,Aquivo Público de Nova York observa-se no sabretache as insígnias PI e principalmente as cores vermelha e branca bem como o tipo sobre casaca da túnica.

No ano de 1916 por ocasião das preparações das festas de cem anos da Independência do Brasil o Doutor Gustavo Barroso, propôs a Câmara Federal um projeto de lei que daria renomearia o 1º Regimento de Cavalaria  de Dragões da Independência, fazendo com que tal unidade voltasse a envergar seu histórico uniforme, a Câmara dos Deputados aprovou, entretanto, o Senado Federal rejeitou, muito embora todo processo foi fundamentado numa questão de história e tradições militares mas parece que não houve entendimento pelo Senado. Aprovação final ao projeto-de-lei veio no ano de 1927, tendo o uniforme histórico da Imperial Guarda de Honra voltado a ser envergado pela unidade no desfile de comemoração do sete de setembro daquele mesmo ano. Há época foi feito um estudo profundo pelo Dr. Gustavo Barroso para que tais indumentárias fossem réplicas perfeitas do uniforme da Imperial Guarda de Honra.

Fig.7 Prancha figurino de Jose Wash Rodrigues reproduzindo o grande uniforme da Imperial Guarda de Honra.(1922)

Fig.8 Segundo uniforme da Imperial Guarda de Honra prancha de Jose Wash Rodrigues ,onde vemos o capacete de couro negro com cimeira dourada, crina e penacho.

Hoje uma das principais polêmicas entre os historiadores interessados nas tradições históricas contidas nos uniformes militares brasileiros recaem logo de início na cobertura ou capacete usado atualmente pelos Dragões da Independência, pois diferem muito tanto em material com em réplica perfeito dos originais. Sabemos que talvez por motivo de custo e até mesmo falta de artesãos como os do século XIX tornou-se difícil tais reproduções. Mas entendemos que com a tecnologia de hoje podemos muito bem realizar e reproduzir perfeitamente esta e outras indumentárias históricas dos exércitos Coloniais e Imperiais como réplicas perfeitas e não fantasias sem muito compromisso com aquilo que chamamos verdadeiramente de uniforme a alma e honra do soldado em suas tradições. Na década de quarenta chegou-se a usar um capacete próximo ao original, já nos anos 70 tentou-se reproduzir um de couro numa mistura entre o 1º e 2º capacete me parece que também tal tentativa não logrou sorte.

Fig.9 Modelo de Capacete a venda numa loja de militaria, datado da década de 40 que guarda algumas características do original.

Fig.10 Modelo de Capacete a venda numa loja de militaria, datado da década de 70 que nos mostra a base em couro sem qualquer apetrecho característica como cimeira, dragão, brasão e jugular.
Assim entendemos que uniforme militar trás consigo toda uma história cultural e o legado de uma unidade que o envergou no passado e não pode e não deve ser alterado deve-se proporcionar intenso estudo para fazê-lo em réplica perfeita tal qual foi o amplo estudo para reviver o fardamento da Imperial Guarda de Honra no final da década de 1910,mais exatamente em 1916 pelo professor Doutor Gustavo Barroso intento exitoso que logrou a volta no tempo de um uniforme perfeito ao que era usado pelas forças imperiais. E assim deve ser pois hoje temos tecnologia suficiente para trabalhar com bordados de qualidade ,fundição e estampagem em metal com qualidades iguais ou superiores ao do passado, pantones de cores que podem reproduzir exatamente as cores originais. Hoje vemos na Europa como nos Estados Unidos da América vários grupos de reenactors envergando réplicas preciosas dos uniformes Napoleônicos, da Guerra Civil Americana, da Guerra da Criméia e tantos outros fardamentos das diversas forças militares de vários períodos da História Militar. Abaixo apresento um documento iconográfico importante à foto enviada por um amigo estudioso da História Militar de um oficial de Dragão da Imperial Guarda de Honra na década de 20 do século passado em seu uniforme onde vemos todos os detalhes tais como o tope verde-amarelo com o dístico abaixo “Independência ou Morte” no lado esquerdo, bem como os canhões da manga bordados com a patente do Regimento de Milícias das Províncias, neste caso a patente da foto tenente-coronel.

Fig.11 Oficial do 1º Regimento de Cavalaria Divisionária na década de 20 do século passado. (foto cedida gentilmente por Erico Storto Padilha)
Vemos ainda o capacete metálico em réplica perfeita, as dragonas feitas em fios dourados metálicas bem como a bota alta de equitação no estilo dos Hussardos dos Exércitos Russo e Austríacos. Entendemos então que um uniforme militar histórico deve ser réplica perfeita dos envergados no passado ainda mais que temos toda tecnologia hoje para reproduzir com exatidão todos os elementos distintivos de tais trajes que carregam em sua própria imagem a força da tradição e honra daqueles que o envergaram no passado, caso contrário passamos a fazer um desserviço a História Militar.





Bibliografia:
Fontes Telematizadas
Barroso,Gustavo, Uniformes do Exércio Brasileiro 1730-1922,Ministério da Guerra,Brasil, Ed.A Ferroud –Paris 1922.

Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil / Jean Baptiste Debret. – São Paulo: Círculo do Livro, sem data.
Grenadiers a Cheval of the Imperial Guard. Lieutenant Porte-Aigle and his escorts- two sous-officiers and 3 brigadiers. 1808-12. by Lucien Rousselot
Regulamento de Uniformes do Exército Brasileiro -Anexo G DOS UNIFORMES HISTÓRICOS do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas – Dragões da Independência.




[1] Mestre em História Social ,membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil ,da Academia Resendense de História e do Instituto de Estudos Valeparaibanos.
[2] Dimakhēs, palavra de origem grega.
[3] Nobre Cortesão francês e soldado, chamado beau Brissac na corte e lembrado como o Maréchal Brissac . Um membro da nobreza de Anjou , foi nomeado em 1540 para o prestigiado antigo posto de seu pai Grande Falconer da França , um dos grandes oficiais do Maison du Roi . Isso não era puramente honorário, pois o rei ainda caçava com falcões . Brissac foi também Grão Panetier , e sua posição como o coronel-general da cavalaria (1548-1549) foi um compromisso tribunal. Aumentado para Marechal de França em 1550, ele era Grão-Mestre da Artilharia. Ele acabou por ser dado o título de Conde de Brissac.
[4] YOUNG, Peter, HOLMES, Richard, The English Civil War
[5] McNAB, Chris (Editor), Armies of the Napoleonic Wars, Osprey Publishing
[6] hussard (ortografia original sérvio: gussar; passando pelo húngaro huszár, plural huszárok) refere-se à classe de cavalaria ligeira, de origem sérvia e croata, mas subseqüentemente via Hungria e imitada por vários países da Europa, que teve grande influência na estratégia militar dos séculos XVIII e XIX. Hoje, por razões tradicionais, algumas unidades militares ainda têm 'hussardo' como parte de seu título.
[7] Barroso,Gustavo, Uniformes do Exércio Brasileiro 1730-1922,Ministério da Guerra,Brasil, Ed.A Ferroud –Paris 1922 pág.34.

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