segunda-feira, 5 de junho de 2017

A expansão da fronteira agrícola em Resende e as terras indígenas um breve estudo


                                                                                                                       Julio Cesar Fidelis Soares(1)
     O Vale do Paraíba e a Vila de Resende entram nesta história primeiramente com a terra que se mostrou atrativa pelo custo e produtividade, um aspecto importante é a visão ou a proto visão dos conceitos econômicos de custo de oportunidade nos investimentos. Vários aspectos técnicos geológicos da terra valeparaibana favoreceram a chegada do café.  Por um lado, num país onde apesar das vastas quantidades de terras disponíveis, a terra sempre foi um bem disputadíssimo (principalmente quando eram próximas aos grandes portos), o Vale do Paraíba oferecia um atrativo fascinante: terras praticamente desocupadas. Com exceção de algumas pousadas e de uns poucos engenhos de açúcar sem grande expressão, a mata virgem dominava soberana região. Se a floresta tropical havia resistido ao colonizador até a passagem do século XVIII para o XIX, a partir daí os altos preços do café no mercado externo abriu contra ela uma guerra de vida ou morte. Somente a possibilidade grandiosa de enriquecimento proporcionada pelo café, fez com que este eliminasse o primeiro dos grandes riscos que a região impunha a floresta. O desmatamento e as "coivaras" (as queimadas que os índios faziam em pequena escala) passaram a fazer parte do cotidiano do Vale. O solo era fértil, sem dúvida. Como toda floresta recém-cortada, mantinha por um bom tempo ainda seu húmus além de que as cinzas das queimadas, de imediato, reforçavam esta aparência de fertilidade permanente. Por outro lado, o café é uma planta extremamente delicada e exigente, precisando de um clima onde o frio não seja intenso e também onde o calor não fosse abrasador.  Além disso, exigia que as chuvas não fossem demasiadas, nem escassas e, de preferência, bem distribuídas o ano inteiro. Essas pré-condições a região valeparaibana oferecia em abundância e foram atrativos irresistíveis aos futuros cafeicultores, que naquele momento eram donos de pequenas e médias propriedades salpicadas pelo vale arqueano.

Mas restava ainda um empecilho à ocupação definitiva. Foi sempre só interesse do governo português a distribuição de sesmarias na região do Vale. No entanto, o habitante primitivo do lugar tornou-se uma grande barreira a esta ocupação, resistindo a invasão. Mas como no caso do pau-brasil e da cana do Nordeste, quando a possibilidade de enriquecimento era muito grande, o homem branco era capaz do impossível. Assim, como no caso da natureza, foi também aberta uma guerra de vida ou morte contra os índios do Vale. Em Vassouras, depois de violentos combates, os Coroados foram confinados numa aldeia em Valença,criando o Conservatório de Índios afastado-os do roteiro do café. Em Resende, conta o historiador da cidade, João Carneiro de Azevedo Maia, que os Puris como não conseguiram ser derrotados pelos brancos num primeiro embate, tiveram um fim triste. Pessoas contaminadas de varíola foram colocadas a banharem-se no rio em que os Puris tiravam água para beber. Parte da tribo, agora derrotada, partiu para a Serra da Mantiqueira, rumo a região de Visconde de Mauá e outras, foram confinados num aldeamento na freguesia de São Vicente Ferrer , criado o aldeamento reserva de São Luiz Beltrão para os Puris, pelo Capitão e Sargento-mor em comissão Joaquim Xavier Curado nomeado pelo Vice-Rei D. Luiz de Vasconcelos e Souza (1779-1790)hoje é a atual Vila da Fumaça. Segundo Bittencourt é na fazenda Canha Grande da então freguesia de São Vicente Ferrer que Antonio Bernardes Bahia, em terras da antiga aldeia dos Puris, Aldeia de São Luiz Beltrão,é que saíram as primeiras mudas de café que foram plantadas em terras da Província de São Paulo, mais exatamente em Bananal, onde Antonio Bernardes Bahia tinha também propriedade,sendo marco e polo irradiador as futuras plantações de café do Vale do Paraíba Paulista fazendo com que Bananal fosse pioneira no plantio da rubiácea em terra da Província Paulista.
Imagem mostra a luta entre os colonos e os índios - autor Rugendas
 Se o café é primeiro plantado nos arredores da cidade do Rio, na Floresta da Tijuca (conhecida na época como "Morro Pelado"), nos anos de 1770, ocupando depois a baixada Fluminense (região de Nova Iguaçu e Caxias), não será aí que ele mais prosperará como atividade econômica. Foi com a experiência de Resende e São João Marcos (cidade hoje não mais existente, pois está submersa na represa de Furnas), que outras localidades do Vale se interessaram em plantar cafés.
O café percorreu muitos caminhos, desde o início do século XIX, saindo do Rio, passando por Resende e S. João Marcos e sendo distribuindo para Valença, Barra Mansa, Vassouras, Piraí, Paraíba do Sul, passando também para a parte paulista do Vale (Bananal, Areias, S. José do Barreiro, Lorena, Silveiras) bem como para a parte mineira (Juiz de Fora, Cataguazes, Leopoldina, Carangola, até Visconde do Rio Branco). O antigo arraial de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova (que foi o nome primitivo de Resende), deu os seus sinais de vida lá pelos anos de 1747 e passou a se chamar Vila de Resende . As primeiras mudas de café, trazidas pelo padre Antonio do Couto Fonseca  da fazenda do holandês Hoppman  no Rio de Janeiro, foram plantadas, como experiência, na região de São Vicente Ferrer onde padre Couto tinha terras, depois do confinamento  dos índios Puris na aldeia de São Luiz Beltrão, próximo do mesmo lugar que começaram a plantar os cafezais como já dissemos. Os motivos que explicam o fato de ser Resende o centro irradiador do café pelo Vale do Paraíba podem ser muitos e, até hoje foram pouco estudados. Dentre estes estímulos prováveis, podemos citar: a) os aspectos geográficos da região do "Campo Alegre" (Resende), que apresentava uma boa baixada, e um solo propício e um clima favorável; b) a proximidade do Rio de Janeiro, que funcionaria como porto para a exportação; c) a atuação estimulante do Marquês do Lavradio, representante do governo de D. João VI que, a partir de 1772, dispensou o serviço militar os habitantes da região que plantassem café. Portanto, todos estes elementos uniram-se para criar as condições necessárias à chegada do café por estas paragens.
Em 1802, Resende já era exportadora de café e, a partir daí, a região sofreria uma grande mudança. O início do reinado do café começou mudando, aos poucos, toda a economia da região. Se até antes da chegada do café, os poucos habitantes do arraial e redondezas do "Campo Alegre", plantavam e beneficiavam um pouco de cana-de-açúcar, cuidavam de plantações de anil, criavam algum gado (vendendo alguma carne para Minas e Rio), tudo, a partir do século XIX, estaria sujeito à novidade cafeeira. Antigas fazendas de gado, engenhos de açúcar e cachaça, plantações de anil, passavam a plantar. Outras plantações como as de milho, feijão, arroz e mandioca passaram a alimentar as fazendas de café e as sedes dos núcleos urbanos dentro de um sistema de apoio e subsistência. Entretanto o café já impunha o seu poder quase absoluto como cultura comercial destinada a exportação.  Quando a Vila de Resende passa a ser considerada como cidade em 1848, a região resendense já se destacava como um dos maiores centros cafeicultores da província. Já estávamos no Segundo Império e o reinado de D. Pedro II esteve marcado pela expansão do café pelo Vale, salvando, progressiva e lentamente, o Império da falência financeira econômica que estava sujeito após a Independência. Ao falarmos em Império devemos sempre lembrar do café, num outro aspecto fundamental ter garantido para Império seu sustento político através das elites agrárias e na escravidão negra e indígena como força motriz daquilo chamaremos de economia agro-exportadora. Confirmada pela Constituição de 1824 e garantido o tráfico até 1850, possibilitando a compra maciça de mais braços para lavoura do café muito embora saibamos que muitos índios eram usados como piões trabalhadores das lides de algumas fazendas.
Região de Resende em 1824 - fonte: Arq.Público do Rio de Janeiro 
No entanto, apesar de toda essa euforia cafeicultora, a região de Resende nunca ocupará o lugar de maior produtora de café da Província do Rio de Janeiro.  Resende foi grande centro produtor, mas não o maior. Mesmo que no início do século XIX, seja a Vila de Resende o centro irradiador do café, espalhando-o por todo o Vale do Paraíba, será Vassouras, Valença, Paraíba do Sul, Barra Mansa e Piraí que possuirão as maiores fazendas e também a maior produção com mudas oriundas de nossa região. Uma das maneiras de compreender este fato é comparar os títulos de nobreza que foram distribuídos nestas outras localidades do Vale, com aqueles que foram cedidos à Resende. E o volume de pequenos e médios produtores face aos de outras regiões do vale.
Os chamados "barões do café"- grandes fazendeiros que eram ligados diretamente com o governo imperial do Rio de Janeiro - em Resende foram apenas quatro (Barão de Monte Verde, Barão de Bananal, Visconde do Salto e Barão de Bela Vista - que depois conseguiu o título de Visconde de Aguiar Toledo) ; enquanto isso, em Vassouras, por exemplo, foram dezenas de fazendeiros que obtiveram títulos de barões, condes, marqueses.
Por outro lado, se a população de Resende (em 1876) era superior a de Barra Mansa, S. João Marcos, Piraí, Vassouras, Valença, no entanto os escravos eram muito poucos, apenas nove mil.  Segundo Lamego, Joaquim Souza Breves - o chamado "rei do café” - era grande proprietário de mais de 25 fazendas distribuídas por todo o Vale (que morava no Palácio da Grama em S. João Marcos), produzia 90 mil arrobas de café numa fazenda sua de Arrozal e em outra de S. João Marcos, 60 mil arrobas, enquanto que na fazenda de S. Vicente Ferrer (Fumaça) produzia 10 mil arrobas, Breves tinha segundo estudos cerca de 6000 escravos em seu plantel distribuído pelo vale.
Assim vários aspectos conjunturais formam os motivos  que explicam as razões de Resende não ter alcançado a mesma projeção de Vassouras, Valença ou mesmo Barra Mansa no que concerne o glamour dos Baronato . Por um lado, as terras no município foram as primeiras a dar sinais de cansaço, porque em Resende o café chegou primeiro; por outro lado o café era primeiro levado de barca pelo Rio Paraíba até Barra do Piraí, para então ser conduzido até o porto em lombo de burro, o que encarecia o preço do transporte; ou ainda após 1850 com a extinção do tráfico, a dificuldade de obter escravos mesmo ainda que os pequenos e médios produtores não utilizassem maciçamente deste recurso, isto lhes trouxeram dificuldades; e também citamos a praga que deu nos cafezais em 1858 que destruiu grande parte das lavouras. 
Imagem de um aldeamento indígena no modelo de São Luiz Beltrão.
Ainda assim o café será produzido em Resende até o século XX e dentro basicamente das pequenas e médias propriedades como originalmente, mas não mais em grande escala de valor, mas em qualidade dos grãos sendo nossas produções  premiadas em várias exposições internacionais onde o café era apresentado. Quanto aos índios estes não sumiram foram se agregando as atividades do campo dentro das suas possibilidades que a economia lhes proporcionou para sobreviver ao modelo imposto pelo homem branco colonizador das terras que outrora foram deles.

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1- Economista,professor universitário,Mestre em História Social membro da Academia Resendense de História,da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do IEV- Instituto de Estudados Valeparaibanos.






sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A PROVÍNCIA DE RESENDE



Por Julio Cesar Fidelis Soares 


Resumo

O presente estudo procura inserir-se na linha temática de fé e poder, pois procuramos mostrar a força e o poder econômico da  região do Vale do Rio Paraíba do Sul, colocando foco principalmente na liderança de Resende por sua pujança em termos de ligações políticas-religiosas e de poder. Mostrando toda a força de seus pequenos, médios e grandes produtores de café em se unirem em prol de interesses comuns fazendo assim ligações políticas na vontade de se juntarem geograficamente e administrativamente com as outras vilas da região para criação de uma nova província para o Brasil do Primeiro Império. Neste ambiente político figuram religiosos e políticos cujas relações de poder uniram vilas e cidades ao redor dos mesmos ideais.


Nosso estudo inicia-se no período em que se processa da Abdicação de Dom Pedro I, pois o imperador procurou atenuar a hostilidade da Câmara organizando um novo ministério chefiado pelo marquês de Barbacena, que contava com a simpatia dos políticos do Partido Brasileiro. A queda desse gabinete, a repercussão dos ideais liberais na Europa com repercussões nas principais províncias do Brasil, fez ferver os ânimos dos liberais. No Rio de Janeiro, violentas lutas de rua entre brasileiros e portugueses colocaram em evidência a impopularidade do imperador. Novo ministério de tendências liberais foi substituído em seguida pelo Ministério dos Marqueses, de tendências absolutistas. A crise culminou em 6 de abril de 1831 com uma grande manifestação popular no Rio de Janeiro, à qual aderiu a guarnição da cidade, comandada pelo brigadeiro Francisco de Lima e Silva. Na madrugada do dia seguinte, 7 de abril, Dom Pedro I abdicou do trono brasileiro em nome de seu filho de cinco anos, Pedro de Alcântara.  Neste turbilhão de idéias liberais onde o separatismo, a independência econômica e política são tônicas recorrentes é que se dá a 4 de agosto de 1829 uma Seção Extraordinária da Câmara da Vila de Resende, conclamando varias vilas a criação de uma nova província do Império do Brasil, uma vez que os signatários desta ideia ,formavam já a base econômica daquilo que se conheceria a frente como o “Império do Café”.  

Fig. I - Imperador do Brasil Dom Pedro I em 1830 obra de Henri Grevedon.

O café, desde o final do século XVIII, transformara-se em produto de luxo que aos poucos se tornava cada vez mais consumido. Os mercados internacionais estavam favoráveis ao café, sua exportação se comportou da seguinte forma segundo Prado Junior conforme a tabela:

Exportação brasileira de café em milhares de sacas de 60 Kg.
Decênios Milhares de Sacas
1821-30 3.178
1831-40 10.430
1841-50 18.367
Fonte: Prado Jr.,Caio,História Econômica do Brasil.ed.SãoPaulo:Brasiliense 1990.

As casas onde se vendia café tornavam-se cada vez mais comuns, os preços do mercado apareciam cada vez mais tentadores, particularmente, quando Haiti (ex-colônia francesa) teve sua produção desbaratada com as guerras de independência, quando os negros assumiram o poder e eliminaram a elite branca, num exemplo único na hstória. Portanto, as condições externas eram favoráveis ao café. Mas internamente o que se passava no Brasil também favorecia o plantio do café.
Quando o Brasil passa a produzir café em grande quantidade, as colônias holandesas e francesas já o produziam há algum tempo. Até a diminuição da produção aurífera das Minas Gerais no final do século XVIII, o café não ofereceu grandes atrativos no Brasil. Mas a situação brasileira após a independência política em 1822, era verdadeiramente difícil, pois principais produtos exportados pelo Brasil passavam momentos de sérias dificuldades. A descoberta do açúcar de beterraba retirou do Brasil uma boa parcela do mercado e os norte-americanos passaram a consumir açúcar de Cuba. O algodão dos Estados Unidos passou a abarrotar os mercados europeus levando quase que à falência as plantações do Nordeste (sobretudo do Maranhão). O fumo, o couro e o cacau que nunca foram produtos de grande expressão também atravessavam uma série de dificuldade. Acrescentando-se a tudo isso, desde antes de consumada a independência já estávamos endividados com os bancos ingleses, dando início a nossa vultosa dívida externa, quando para pagar o reconhecimento de Portugal pedimos um empréstimo de dois milhões de libras que nem chegaram a sair dos cofres ingleses (pois foi debitado da conta que os portugueses já tinham com os ingleses). O novo Estado brasileiro sem poder aumentar as taxas da alfândega (pois os produtos exportados não encontravam bons preços no mercado) vivia uma situação de grande problema financeiro.
Essa situação de penúria e incertezas perdura até aproximadamente de 1830 a 1840, quando o café passará a ser o principal produto exportado pelo Brasil. Entretanto em 1822 ele já era responsável por 18% das exportações (vindo logo abaixo do açúcar e do algodão) e em 1840, passa a representar 41,4% das exportações (enquanto o açúcar passa para 26% e o algodão 7,5%).  Nestas condições é que se dá o auge da cafeicultura resendense bem como dos outros municípios a seu entorno, ou  seja, na virada da década de 1840 para 1850.
Mas ao final da década de 1820 um episódio grande relevância ocorre na história de Resende envolvendo a câmara Municipal e a população de toda região do Médio Paraíba. Foi a idéia da criação de uma nova província para o Império do Brasil, província esta movida pela força e poder econômico do Café. E assim, quem melhor nos relata tal momento é João Maia: 

"Desde 1829, concebeu a câmara municipal de Resende, uma idéia grandiosa que por ser arrojada e não terem sido previstos os obstáculos que a deviam malograr,não teve o sucesso que estava nos desígnos[sic] dessa corporação animada do mais elevado patriotismo e de intuitos progressistas sem igual em outras municipalidades desse tempo."  

Há época do período da independência, havia municípios pertencentes a três províncias, com cidades prósperas, que mantinham íntimas relações comerciais entre si. Na Província do Rio de Janeiro tínhamos Resende, Valença, Parati,S.João Príncipe e Ilha Grande; Campanha e Baependi, na de Minas Gerais, e Areias, Lorena, Cunha e Guaratinguetá, na de São Paulo. Por relações comerciais e facilidades de transporte, de acordo com os recursos da época, tais cidades estavam intimamente ligadas por laços de parentesco de seus habitantes e também, inspiradas no interesse comum desses municípios, que como o de Resende, tinham grande dificuldade de transporte em relação as vias de ligação, tendo de percorrer grandes distâncias e péssimos caminhos para irem às capitais respectivas o que demandou atitudes que pudessem resolver sua necessidades locais com mais velocidade e presteza, no caso a abertura de caminhos alternativos para escoamento da produção, sobretudo, o café. Caio Prado, em sua obra Formação do Brasil Contemporâneo descreve a riqueza da região bem como o ímpeto de se tornar Província:

"Aliás para esta área do curso médio do Paraíba, que se tornará o centro da maior riqueza do Império, confluem três movimentos simultâneos: a expansão paulista, que invadirá territórios que embora desocupados, pertenciam a província do Rio de Janeiro; o que vem de Minas Gerais descendo para o sul, e o que vem do Rio de Janeiro para o interior da capitania. Os três se reunirão aí ,e embora formada de trechos de províncias diferentes, a região terá características tão peculiares e próprias que se cogitará um momento de formar com ela uma província à parte."  




Fig.1 – Trecho da Ata da Câmara Municipal de Resende Seção de 7 de Julho de 1829  página 27 com a idéia proposta pelo Pe. Jose Marques da Motta para criação de uma nova província.Podemos notar que ele cita as vilas de serra acima: Areias, São João do Príncipe, Valença, Lorena, Guaratinguetá, Cunha e outras vilas da Província de Minas.


Fig.2 – Página 27(Verso) da Ata da Câmara Municipal de Resende Seção de 7 de Julho de 1829  com a ideia proposta pelo Pe. Jose Marques da Motta para criação de uma nova província. Ao final vê-se autógrafos do Padre Joaquim Pereira de Escobar (Presidente da Câmara), João Lourenço Dias Junior, Fabiano Pereira Barreto, Padre Francisco do Carmo Frois,Antonio Luis Vaz Vianna e Bento de Azevedo Maia.

Os interesses e aspirações comuns, as dificuldades para entendimentos com os presidentes das respectivas províncias, geraram no espírito dos munícipes a grande conveniência da  nova organização, com os citados municípios, de uma nova província destacada das de São Paulo, Rio e Minas. 
A idéia não tardou a ser aceita com entusiasmo pelos donos poder de tais cidades, transformando-se numa verdadeira aspiração da maioria de seus habitantes. Houve entendimentos entre representantes dos vários municípios, no intuito de tornar realidade esta aspiração de seus munícipes, pois existiam pequenas dúvidas e ligeiras rusgas, oriundas de interesses locais específicos que acabariam sendo resolvidas num contexto geral.
Mas em Baependi , guartel general dos "Nogueira" , exigia-se as honras de capital da nova província. Contudo, Resende também almejava esta primazia e tal pretensão era justificada pela sua melhor posição geográfica em relação ao plano proposto, situação esta que Zaluar comenta em sua obra nos idos de 1860:
”três artérias magna importância comunicam Resende com as outras províncias irmãs :pela estrada Presidente Pedreira,da Barra Mansa ao Picu ,está ela em contato com o grande centro da capital; pela estrada chamada da Bocaina comunica com a Província de Minas; e pela estrada do Ariró, com a de São Paulo , parte de cujo território atravessa.”   
Não se chegou a um acordo a respeito da denominação da nova província.  A questão da denominação da Nova Província esta ainda em pauta , quando o impetuoso vereador da câmara municipal de Resende, o padre José Marques da Motta , inabilmente precipitou os acontecimentos, fechando questão quanto a capital e o nome da nova província que deveria adotar a mesma denominação da então Vila de Resende, ou Província de Resende. Tal gesto impetuoso do padre provocou grande polêmica, discussões, discordâncias e posicionamento regionalistas entre os outros municípios, sobretudo Baependi, tendo gerado um retrocesso nas negociações, até então já consumadas e acertadas com todos da necessidade da criação de uma nova ordem administrativa.
O que podemos ver é a força do poder econômico da região, principalmente a liderança de Resende, por sua pujança em termos de ligações políticas e de poder, mostrando toda a força dos pequenos e médios produtores em se unirem em prol de interesses comuns sejam eles ligados geograficamente e administrativamente a outras Províncias. Assim damos conta de assunto transcrevendo o ofício dirigido pela Câmara de Resende aos municípios convencionados:

Ilmos. Srs. Vereadores da Câmara de ........

A Câmara municipal da vila de Resende,considerando muito refletidamente o estado atual da mesma vila e suas circunvizinhanças e, consultando a este respeito pessoas entendidas e bem intencionadas, foi obrigada a reconhecer:

1º - Que o vagaroso progresso da sua indústria, da sua civilização e as efetividade de seus direitos públicos e individuais estabelecidos na constituição não correspondem de modo algum, à riqueza de suas produções,facilidade de sua exportação e boas disposições de seus habitantes.

2º - Que este estacionamento humilhante à face do progresso de outros povos do Brasil, procede dos obstáculos que as distâncias opõem à ação administrativa tornando-a umas vezes fraca, outras demasiado rigorosa, e quase sempre, tardia e pouco previdente.

3º - Que, sendo a distância da autoridade administrativa a causa constante dos males indicados, o encurtar esta distância é meio indispensável para remediá-los.

Conquanto tenha a câmara desta vila por sagrado dever o promover a prosperidade dela, não pode separá-lo dos sentimentos de nacionalidade que a prendem a todo o Império e a cada uma de suas partes e está convencida de que a prosperidade de uma povoação só pode caminhar a par de suas vizinhanças. Considerando, finalmente, que não só algumas vilas desta província, como outras de São Paulo e de Minas Gerais, sentem as mesmas necessidades, concebeu o projeto de requerer a criação de uma nova província que pode ter por capital esta vila e por distritos as que vão mencionadas na tabela anexa.
Tomando esta câmara semelhante iniciativa, porque era necessário que alguém a tivesse, de nenhum modo prosseguiria em tal projeto sem primeiramente ouvir o parecer e obter o consentimento das municipalidades interessadas, motivo porque se dirige a todas, interrogando suas luzes e consultando suas vontades.
Indicando esta vila para capital da nova província, espera esta câmara não poder ser arguida de parcialidade, quando sua posição central a está indicando como a mais apropriada; desde que se mostrem maiores vantagens em outro lugar, nenhuma dúvida porá esta câmara em mudar de opinião, visto que seus desejos são sempre inspirados pelo bem do maior número.
Roga-se, portanto, a V.Sas. queiram tomar na devida consideração a presente proposta para, de comum acordo, dirigir-se ao corpo legislativo a necessária representação.

Deus guarde, etc, Resende, 4 de novembro de 1829 Joaquim Pereira de Escobar - José Marques da Motta - Bento de Azevedo Maia Fabiano Pereira Barretto - Antônio Luiz Gonçalves Viana - João Lourenço Guimarães - Francisco do Carmo Froes.


O documento inicial que propõe a idéia da nova província foi a ata da seção de 7 de julho de 1829. Nela tratou-se de diverso assuntos como nomeação de Juiz Ordinário para vila , a nomeação de um carcereiro para Cadeia Pública e uma série de outros assuntos administrativo da Vila de Resende. Mais o trecho que nos interessa está registrado na página 27 da ata citada anteriormente e assim foi registrado :
  
“ O Senhor Motta propôs o seguinte. Havendo considerado a quanto fosse útil aos povos de Serra Acima a Criação  de huma nova Província que compreende esta Villa , a de Areias, Sam João do Príncipe , Valença, de Lorena , Guaratinguetha, Cunha e outras  das Província de Minas proponho  a esta Câmara que Convide as Municipalidades das dittas Villas para se reunirem a esta Câmara na representação que se houver de fazer a Assembléia Legislativa .... em Seção de sete de julho de mil e oitocentos e vinte nove. Motta que foi apoiado Remetido a Comissão dos Officios para dar (Apreciação) na Seção de três de Agosto.”





Fig.3 ATA DA SEÇÃO EXTRAORDINÁRIA DA CÂMARA DA VILA DERESENDE PROPONDO A CRIAÇÃO DA PROVÍNCIA DE RESENDE – 4 DE
AGOSTO DE 1829.



Fig.4 ATA DA SEÇÃO EXTRAORDINÁRIA DA CÂMARA DA VILA DE RESENDE PROPONDO CRIAÇÃO DA PROVÍNCIA - DATA 4 DE AGOSTO DE 1829.


Assim pelo que vimos tal seção só se realizou em verdade no dia 4 a de Agosto de 1829 conforme registrado em Ata de Seção Extraordinária.  Segundo o historiador local Dr. João Maia somente em 7 de abril de 1831 esta idéia volta a despertar  interesse e alguma esperança , talvez quem sabe algum padrinho político pudesse ajudar tão arrojado ideal. Poderíamos propor a hipótese de que este padrinho pudesse ser o Imperador, que via nesta nossa região uma grande base de apoio ao poder uma vez que sabemos que o ano 1831 é um período muito difícil na gestão do império, mas fato é se este era o padrinho foi neste 7 de Abril que Sua Majestade renuncia ao trono brasileiro pois viu que não tinha sustentação política , nomeado no dia 5 de abril um ministério totalmente ligado a sua linha de pensamento político cuja ideais eram totalmente contrário ao gosto do povo e abdicando em favor de seu filho. O que observamos então é a força do poder econômico da região, sobretudo a liderança de Resende, por sua pujança em termos de ligações políticas e de poder, mostrando toda sua força na representação dos pequenos e médios produtores de café em se unirem em prol de um interesse comum seja eles ligados geograficamente e administrativamente a outra províncias como São Paulo e Minas. Vemos neste momento que a hegemonia de poder e influência de relações se transfere gradativamente para estes produtores de café , seja ele pequeno, médio ou grande(o Barões do Café). Assistimos a partir de ações precursoras como estudada que as províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas representadas por nossa micro-região passam a conformar-se num novo laço de relações de poder dentro de seus interesses no Brasil Independente do Segundo Reinado.




Fig.5 Padre Jose Marques da Motta(1795-1846) 1º Provedor da Santa Casa de Resende,Político,Membro da Câmara Municipal. O quadro original encontra-se na galeria de provedores da Santa Casa de Misericórdia de Resende.

fig.6 Fragmento de Ata da Provedoria da Santa Casa de Resende com Autógrafo do Pe.José Marques da Motta - 1835.

Bibliografia

Fontes Primárias
Arquivo Histórico Municipal – Resende, RJ.
a) Atos da Câmara, correspondência dos Presidentes, Vice-Presidentes e Secretários.  Símbolo CMI,1 2.ªcaixa-Correspondência dos Presidentes, Vice-Presidentes e Secretários. 1831-34; 1836-37; 1840;
Vereadores - Documentação produzida e recebida pelos Vereadores e relativa às suas funções: ofícios, indicações, propostas, pareceres das Comissões.  Símbolo CM1
1.a caixa - 1824; 1826-35.
2.a caixa - 1836-41;
b) Livro de Ata Câmara Municipal de Resende – CM 1829 à 1833  registro da Seção ordinária de 7 de Julho de 1829 – página 27 e 27 Verso.
c) Livro de Ata Câmara Municipal de Resende – CM 1829 à 1833  registro da Seção Extraordinária de 4 de Agosto de 1829.

HISTORIADORES LOCAIS e VIAJANTES

Barcellos, Marcos C., A Santa Casa da Misericórdia de Resende– Religiosidade e Política na Paraíba Nova (1801-1848),Artigo – Universidade Federal de Dourados - Dourados, MS, v. 12, n. 21, jan./jun. 2010 acessado in: http://www.periodicos.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/597

Bento,Claudio Moreira, A Saga da Santa Casa de Misericórdia de Resende 1835 a 1992 , ed.Senai- 1992.
Bopp, Itamar.  Casamentos na Matriz de Resende.  Instituto Genealógico Brasileiro, 1971.
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 Burlamaque, F. L. C. Monografia do Cafeeiro e do Café.  Rio de Janeiro, Tip.  N. L. Viana & Filhos, 1987.
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__________, &  Maria Cristina  F.M. Godoy –ARDHIS –Academia Resendense de História.Resende, Cronicas dos Duzentos Anos, Resende-RJ :Ed Gráfica La Salle , 2001.

Bibliografia Complementar

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Os Dragões da Imperial Guarda de Honra um estudo do uniforme histórico


por Julio Cesar Fidelis Soares[1]
O presente estudo vem da curiosidade investigativa pelo entendimento das origens das unidades militares denominadas de Dragões, unidades estas dentro do senso comum sempre ligada a arma de cavalaria dos exércitos das quais fazem partes.  Assim neste trabalho abordaremos o tema num primeiro momento falando das origens de tais unidades ao longo da História Militar, num segundo momento abordaremos sobre as unidades de Dragões na História militar brasileira do período colonial até os dias atuais, apresentando principalmente aquilo que mais lhe são particulares os uniformes.
Na história o que sabemos é que o mais remoto do que viria a ser o dragão tenha sido o dímaco[2] da antiga Macedónia. O dímaco era um tipo de soldado de cavalaria pesada que também lutava a pé quando era necessário.
O termo "dragão" passou a designar um tipo de soldado e segundo estudos apareceu em meados do século XVI para se referir aos membros do corpo de arcabuzeiros que combatiam a pé e se deslocavam a cavalo, criados em 1554 pelo marechal de França Carlos I de Cossé, conde de Brissac [3] para servir no Exército do Piemonte.  Uma outra versão para a gênese da denominação diz que  pode referir-se aos supostos dragões contidos nos estandartes das tropas do conde de Brissac ou a uma espécie arcabuz curto ou carabina usada pelas mesmas e que era então chamada "dragão". A última hipótese do termo se refere a ter originado do fato de um soldado de infantaria a galope com a sua casaca solta e a mecha a arder ao vento se parecia com um dragão.
O Rei Gustavo II Adolfo da Suécia, no início do século XVII, introduziu os dragões no seu Exército, dotou-os de um conjunto multifuncional de armas que incluía um sabre, um machado e um mosquete. Este modelo de armamento para os dragões foi a seguir imitado por muitos dos restantes exércitos da Europa. Estas primeiras tropas de dragões não eram ainda consideradas parte da cavalaria, mas sim infantaria montada. Assim, as unidades de dragões mantinham os atributos e caraterísticas da infantaria, por exemplo, usando tambores em vez dos clarins e trombetas típicos da cavalaria e sendo enquadradas por oficiais de infantaria. Nesta época, os dragões eram usados para uma série de missões militares que incluíam o estabelecimento de piquetes e postos avançados, a defesa de pontes ou desfiladeiros na vanguarda ou retaguarda do corpo principal do exército e a disponibilização de mosqueteiros desmontados para apoio à cavalaria de linha. Por outro lado, a flexibilidade que os dragões tinham como infantaria montada tornava-os arma ideal para servir como uma espécie de gendarmaria em missões de segurança interna, incluindo a perseguição de contrabandistas, o patrulhamento das estradas e a repressão de desordens públicas. Sendo providos de cavalos de qualidade inferior e de equipamento mais básico, os regimentos de dragões eram muito mais fáceis de levantar e manter que as dispendiosas unidades de cavalaria de linha.[4]
Contudo, os dragões estavam em desvantagem quando enfrentavam a genuína cavalaria. Assim, procuraram sempre obter melhores condições em termos de equitação, armamento e estatuto social. Na transição do século XVIII para o XIX, na maioria dos exércitos europeus, os dragões tinham evoluído já de tropas de infantaria montada para verdadeiras tropas cavalaria. Nesta altura, as antigas missões de exploração e funções de piquete anteriormente atribuídas aos dragões tinham sido já assumidas pelos hussardos, caçadores a cavalo e outras unidades de cavalaria ligeira em exércitos como os da Áustria, França e Prússia. Os exércitos de Espanha e Portugal chegam mesmo a abolir os dragões transformando-os em regimentos de cavalaria de linha. Inversamente, com o objetivo de reduzir os seus gastos militares, o Exército Britânico transforma todos os seus regimentos de cavalaria em unidades de dragões, que, no entanto desempenham funções de cavalaria de linha. Uma exceção foi o Exército da Rússia, onde - devido à existência dos cossacos - os dragões mantiveram as suas missões originais até mais tarde do que a generalidade dos restantes exércitos.
Durante as Guerras Napoleónicas, os dragões assumiram geralmente uma função de cavalaria média, intermédia entre os couraceiros (cavalaria pesada) e a cavalaria ligeira. Os dragões montavam cavalos maiores que os da cavalaria ligeira e estavam armados com espadas direitas em vez dos sabres curvos daquela. O Imperador Napoleão formava frequentemente divisões completas de dragões com os seus 20 ou 30 regimentos daquele tipo, usando-as como cavalaria de choque para quebrar a resistência do inimigo. Em 1809, os dragões franceses obtiveram sucessos notáveis contra o Exército Espanhol nas batalhas de Ocana e de Alba de Tormes. Por seu lado, os dragões pesados britânicos executaram cargas devastadoras contra a infantaria francesa nas batalhas de Salamanca em 1812 e de Waterloo em 1815.[5]
Ao iniciar-se a Primeira Guerra Mundial em 1914 ainda existiam regimentos de dragões nos exércitos Alemão, Austro-Húngaro, Britânico, Dinamarquês, Espanhol, Francês, Norueguês, Peruano, Russo e Sueco. Os seus uniformes variavam consideravelmente, faltando-lhe as caraterísticas específicas dos uniformes dos regimentos de hussardos[6] ou de lanceiros. Ocasionalmente, ainda recordavam as suas origens como infantaria montada. Assim, os regimentos de dragões alemães usavam o mesmo modelo de pickelhaube (capacete de espigão) da infantaria e os dragões britânicos usavam fardas escarlates. Contudo, em todos os restantes aspectos, os dragões tinham já adotado as mesmas táticas, funções e equipamento dos restantes ramos da cavalaria, sendo a sua distinção um título meramente tradicional.
No Brasil os Dragões iniciam sua jornada histórica a partir do período Colonial desempenhando missões de ação rápida e de controle de estradas do Brasil Colônia.
Segundo os registros históricos é em 1719 que chegam a Minas Gerais duas companhias de dragões enviadas de Lisboa, que irão constituir os famosos Dragões Reais de Minas unidade em que serviu o Alferes Joaquim Jose da Silva Xavier. Tal unidade tinha como missão principal a garantia da segurança dos distritos mineradores e seus caminhos, funcionando como uma espécie de polícia militar montada. Da reunião das três companhias de dragões que tinham sido enviadas de Portugal para Minas Gerais, as duas primeiras vieram em 1719 e a terceira em 1729. O Regimento de Dragões de Minas formado pelas duas companhias tinham como missão principal, a da garantia da lei e da ordem nas atividades de exploração do ouro e a fiscalização da cobrança de impostos. Já em 1729, chega da Metrópole Portuguesa, uma terceira companhia de dragões, que acaba por ser enviada para participar nas operações militares de defesa do Sul do Brasil. Esta companhia foi acrescida de oficiais dragões adicionais vindos diretamente de Portugal. Sendo o núcleo de um regimento de dragões a ser formado na Colônia do Sacramento. Esse regimento irá ser formado em 1736, mas como Regimento de Dragões do Rio Pardo. Com base em efetivos dos Dragões Reais de Minas são também criadas às companhias de dragões de Cuiabá e de Goiás.
Com os eventos da Independência do Brasil e da reorganização do novo Exército Brasileiro em 1825 os dragões Coloniais são extintos. Os antigos dragões de Minas, do Rio Pardo, de Montevidéu e da União tornam-se, respectivamente, o 2º, 5º, 6º e 7º regimentos de cavalaria de 1ª linha. O antigo Esquadrão de Cavalaria da Guarda do Vice-Rei foi transformado em 1º Regimento de Cavalaria do Exército por dom João VI em 1808 tomando nova designação como 1º Regimento de Cavalaria de Primeira Linha. Com a Independência, é criada também a Imperial Guarda de Honra dos Mosqueteiros de dom Pedro I (1822-1831) núcleo primordial para o Regimento de Dragões. Segundo o Dr. Gustavo Barroso sendo proclamada a Independência, recebeu o imperador o auxilio de algumas províncias, em primeiro lugar temos a de São Paulo ,Rio de Janeiro e Minas Gerais que serviram de base para criação da unidade que recebeu a denominação de Imperial Guarda de Honra, criada por decreto de 1º de Dezembro de 1822.
A unidade segundo Barroso foi formada de um estado-maior e três esquadrões com 158 elementos cada um, sendo que deste o 1ª Esquadrão se formou na Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté importante núcleo colonial e centro dispersor das Bandeiras. O segundo esquadrão se formou na Corte e o terceiro em São João D’El Rei província de Minas Gerais. E nos diz mais que a Imperial Guarda de Honra foi extinta em 1832 com abdicação do Imperador, mas seus membros foram autorizados a usarem seus uniformes.  Barroso relata em sua obra que por ocasião da necessidade de atender o imperador a Província de São Paulo adotou um uniforme branco com detalhes vermelho cores tradicionais da cavalaria em suas tradições, sobre a cobertura desta  época ele nos relata que não se conhece o uso de capacete antes da situação da independência. Entretanto nos aventa a hipótese do uso do modelo bávaro que era de uso da cavalaria das milícias.

Fig.1 Bicórneo Bávaro em uso nas milícias no Brasil colônia nas primeiras décadas do século XVX. (Fonte: Barroso,Gustavo,1922)
O primeiro tipo de cobertura era um capacete metálico provavelmente em folhas de latão dourado sobrepostos com escamas de dragão, com um dragão na cimeira representando a casa de Bragança, da cimeira sobressai à crina.


Fig.2 Capacete da Imperial Guarda de Honra 1825 – fonte: MHN Rio de Janeiro.
Quando do segundo casamento do Imperador, Barroso nos diz que Debret cria uma nova cobertura para os Dragões era de couro com ferragens douradas e três círculos concêntricos, dois amarelos e um verde, como tope substituído, em 1831, por uma  estrela de ouro em campo verde[7].  Debret pinta, na cimeira do capacete de couro com virolas e reforços de latão o dragão alado do primeiro modelo que se mantém as crinas.

Fig.3 Desenho de J.B.Debret do segundo uniforme da Imperial Guarda de Honra, por ocasião do casamento do imperador com Dona Amélia de Leuchtenberg(1829).

Quanto ao uniforme era branco com detalhes, virolas, em vermelho, as dragonas eram douradas em formato de escamas, correames ou talabartes negros trazendo a vista à tradição dos dragões vienenses, talvez uma homenagem a casa real austríaca de Habsburgo.


Fig.4 Corneteiro do Regimento de Dragões do Grão Duque Toscana. 1813-1815.
Infelizmente a indumentária usada hoje lembra, mas não é cópia fiel nem ao primeiro, nem ao segundo uniforme criado nos inicio do século dezenove, sem falarmos nas dragonas de praça e de oficiais, nas chapas para correntes dos escovilhões das pistolas e mosquetes bem como chapas de talim. Nas buscas de como deveriam ser em um primeiro momento o uniforme chegamos a duas imagens uma remetendo ao corpo de milícia paulista e outro a uma imagem do arquivo da biblioteca pública de Nova York que mostra um croqui do uniforma da imperial guarda de honra, observem na imagem que existem anotações de época dando conta do que se refere à imagem.

Fig.5 Nesta figura vemos um soldado do Corpo de Milícias Úteis em seu uniforme Branco e Vermelho usado nas primeiras décadas do século XIX e usando o chapéu Bicórneo Bávaro. Fonte: Barroso,Gustavo(1922)


Fig.6 Imagem da Guarda de Honra do Imperador  do Brasil 1825,Aquivo Público de Nova York observa-se no sabretache as insígnias PI e principalmente as cores vermelha e branca bem como o tipo sobre casaca da túnica.

No ano de 1916 por ocasião das preparações das festas de cem anos da Independência do Brasil o Doutor Gustavo Barroso, propôs a Câmara Federal um projeto de lei que daria renomearia o 1º Regimento de Cavalaria  de Dragões da Independência, fazendo com que tal unidade voltasse a envergar seu histórico uniforme, a Câmara dos Deputados aprovou, entretanto, o Senado Federal rejeitou, muito embora todo processo foi fundamentado numa questão de história e tradições militares mas parece que não houve entendimento pelo Senado. Aprovação final ao projeto-de-lei veio no ano de 1927, tendo o uniforme histórico da Imperial Guarda de Honra voltado a ser envergado pela unidade no desfile de comemoração do sete de setembro daquele mesmo ano. Há época foi feito um estudo profundo pelo Dr. Gustavo Barroso para que tais indumentárias fossem réplicas perfeitas do uniforme da Imperial Guarda de Honra.

Fig.7 Prancha figurino de Jose Wash Rodrigues reproduzindo o grande uniforme da Imperial Guarda de Honra.(1922)

Fig.8 Segundo uniforme da Imperial Guarda de Honra prancha de Jose Wash Rodrigues ,onde vemos o capacete de couro negro com cimeira dourada, crina e penacho.

Hoje uma das principais polêmicas entre os historiadores interessados nas tradições históricas contidas nos uniformes militares brasileiros recaem logo de início na cobertura ou capacete usado atualmente pelos Dragões da Independência, pois diferem muito tanto em material com em réplica perfeito dos originais. Sabemos que talvez por motivo de custo e até mesmo falta de artesãos como os do século XIX tornou-se difícil tais reproduções. Mas entendemos que com a tecnologia de hoje podemos muito bem realizar e reproduzir perfeitamente esta e outras indumentárias históricas dos exércitos Coloniais e Imperiais como réplicas perfeitas e não fantasias sem muito compromisso com aquilo que chamamos verdadeiramente de uniforme a alma e honra do soldado em suas tradições. Na década de quarenta chegou-se a usar um capacete próximo ao original, já nos anos 70 tentou-se reproduzir um de couro numa mistura entre o 1º e 2º capacete me parece que também tal tentativa não logrou sorte.

Fig.9 Modelo de Capacete a venda numa loja de militaria, datado da década de 40 que guarda algumas características do original.

Fig.10 Modelo de Capacete a venda numa loja de militaria, datado da década de 70 que nos mostra a base em couro sem qualquer apetrecho característica como cimeira, dragão, brasão e jugular.
Assim entendemos que uniforme militar trás consigo toda uma história cultural e o legado de uma unidade que o envergou no passado e não pode e não deve ser alterado deve-se proporcionar intenso estudo para fazê-lo em réplica perfeita tal qual foi o amplo estudo para reviver o fardamento da Imperial Guarda de Honra no final da década de 1910,mais exatamente em 1916 pelo professor Doutor Gustavo Barroso intento exitoso que logrou a volta no tempo de um uniforme perfeito ao que era usado pelas forças imperiais. E assim deve ser pois hoje temos tecnologia suficiente para trabalhar com bordados de qualidade ,fundição e estampagem em metal com qualidades iguais ou superiores ao do passado, pantones de cores que podem reproduzir exatamente as cores originais. Hoje vemos na Europa como nos Estados Unidos da América vários grupos de reenactors envergando réplicas preciosas dos uniformes Napoleônicos, da Guerra Civil Americana, da Guerra da Criméia e tantos outros fardamentos das diversas forças militares de vários períodos da História Militar. Abaixo apresento um documento iconográfico importante à foto enviada por um amigo estudioso da História Militar de um oficial de Dragão da Imperial Guarda de Honra na década de 20 do século passado em seu uniforme onde vemos todos os detalhes tais como o tope verde-amarelo com o dístico abaixo “Independência ou Morte” no lado esquerdo, bem como os canhões da manga bordados com a patente do Regimento de Milícias das Províncias, neste caso a patente da foto tenente-coronel.

Fig.11 Oficial do 1º Regimento de Cavalaria Divisionária na década de 20 do século passado. (foto cedida gentilmente por Erico Storto Padilha)
Vemos ainda o capacete metálico em réplica perfeita, as dragonas feitas em fios dourados metálicas bem como a bota alta de equitação no estilo dos Hussardos dos Exércitos Russo e Austríacos. Entendemos então que um uniforme militar histórico deve ser réplica perfeita dos envergados no passado ainda mais que temos toda tecnologia hoje para reproduzir com exatidão todos os elementos distintivos de tais trajes que carregam em sua própria imagem a força da tradição e honra daqueles que o envergaram no passado, caso contrário passamos a fazer um desserviço a História Militar.





Bibliografia:
Fontes Telematizadas
Barroso,Gustavo, Uniformes do Exércio Brasileiro 1730-1922,Ministério da Guerra,Brasil, Ed.A Ferroud –Paris 1922.

Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil / Jean Baptiste Debret. – São Paulo: Círculo do Livro, sem data.
Grenadiers a Cheval of the Imperial Guard. Lieutenant Porte-Aigle and his escorts- two sous-officiers and 3 brigadiers. 1808-12. by Lucien Rousselot
Regulamento de Uniformes do Exército Brasileiro -Anexo G DOS UNIFORMES HISTÓRICOS do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas – Dragões da Independência.




[1] Mestre em História Social ,membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil ,da Academia Resendense de História e do Instituto de Estudos Valeparaibanos.
[2] Dimakhēs, palavra de origem grega.
[3] Nobre Cortesão francês e soldado, chamado beau Brissac na corte e lembrado como o Maréchal Brissac . Um membro da nobreza de Anjou , foi nomeado em 1540 para o prestigiado antigo posto de seu pai Grande Falconer da França , um dos grandes oficiais do Maison du Roi . Isso não era puramente honorário, pois o rei ainda caçava com falcões . Brissac foi também Grão Panetier , e sua posição como o coronel-general da cavalaria (1548-1549) foi um compromisso tribunal. Aumentado para Marechal de França em 1550, ele era Grão-Mestre da Artilharia. Ele acabou por ser dado o título de Conde de Brissac.
[4] YOUNG, Peter, HOLMES, Richard, The English Civil War
[5] McNAB, Chris (Editor), Armies of the Napoleonic Wars, Osprey Publishing
[6] hussard (ortografia original sérvio: gussar; passando pelo húngaro huszár, plural huszárok) refere-se à classe de cavalaria ligeira, de origem sérvia e croata, mas subseqüentemente via Hungria e imitada por vários países da Europa, que teve grande influência na estratégia militar dos séculos XVIII e XIX. Hoje, por razões tradicionais, algumas unidades militares ainda têm 'hussardo' como parte de seu título.
[7] Barroso,Gustavo, Uniformes do Exércio Brasileiro 1730-1922,Ministério da Guerra,Brasil, Ed.A Ferroud –Paris 1922 pág.34.