sábado, 8 de agosto de 2015

A Freguesia de São Vicente Ferrer e o Aldeamento de São Luiz Beltrão hagiografia dos padroeiros


Julio Cesar Fidelis Soares[1]
Segundo registros do final do século XVIII em dois de outubro de 1788  foi assinado o ofício de criação da aldeia de São Luis Beltrão, por ordem do quarto Vice-Rei, Luiz de Vasconcellos e Souza. Cabendo a tarefa ao Capitão e Sargento-mór em comissão Joaquim Xavier Curado organizar o aldeamento para os índios. O aldeamento tinha como objetivo o  confinamento dos índios, e para isto foi nomeado um curador dos índios, Mariquita líder dos Puis, aceitou se aldear e escolheu permanecer em terras que habitava anteriormente. Assim, se instalaram os indígenas nas margens do ribeirão São Luiz, um afluente do rio Preto, onde receberam o padre Henrique José de Carvalho curador de índios, encarregado de catequizá-los e civilizá-los. Este levantou a capela da aldeia, que teve por orago São Luiz Beltrão. Então quem foi São Luiz Beltrão? São Luiz Beltrão era natural de Valência, na Espanha, era filho de um tabelião da mesma cidade e veio ao mundo em 1526. Nos primeiros anos da infância dava indícios indubitáveis de futura santidade. Sete anos tinha, quando começou a recitar diariamente o ofício de Nossa Senhora. O prazer do piedoso menino era ir à igreja. Às práticas de piedade aliava uma obediência incondicional aos pais, amor às mortificações, ao estudo e à leitura espiritual. Sempre que podia, trocava a cama pelo soalho, procurando em tudo imitar o seu santo parente Vicente Ferrer.
Fig.1 Igreja dedicada a São Vicente Ferrer Padroeiro da Vila da Fumaça. 
Mocinho afastou-se clandestinamente da casa paterna, em demanda de uma solidão, onde pudesse mais desembaraçadamente se entregar a exercícios de piedade e de penitência. O pai descobriu-lhe o esconderijo e obrigou ao filho a voltar para casa, não podendo, entretanto, evitar mais tarde que entrasse para a Ordem Dominicana. Os progressos de Luiz na virtude e na perfeição religiosa foram tais, que sete anos depois da entrada na Ordem, foi nomeado Mestre do Noviciado. Com grande proficiência desempenhou-se por diversas vezes da missão de missionário. Além de dispor de grandes recursos retóricos, possuía o dom de ler nas consciências e de predizer coisas futuras.
Fig.2 Iconografia de São Luiz Beltrão, membro da Ordem dos frades Dominicanos. 


Segundo a hagiografia no ano de 1557 a peste assolou a cidade de Valência. Luiz aproveitou-se da ocasião, para praticar obras heroicas de caridade. A terrível epidemia poupou-lhe a pessoa; mas logo que as coisas se normalizaram, pediu aos superiores que o destinassem às missões entre os indígenas da América. Como recompensa dos serviços prestados nos dias da peste, obteve o que pedira. Em 1562 partiu para as índias ocidentais, em companhia de outros sacerdotes da Ordem Dominicana. Ardia-lhe no coração o desejo de salvar almas e de dar a vida em testemunho da fé que pregava e grande foi o número de pagãos que ganhara para a religião de Cristo. Pouco antes de morrer, virou-se para os irmãos de Ordem e disse: “Rezai por mim, meus irmãos, para que Deus não me condene”. São Luiz Beltrão morreu em 9 de Outubro de 1581, conforme predissera. O Papa Clemente X o canonizou com Santo da Igreja em 1671. Sua festa é comemorada em  9 de Outubro e é o padroeiro da Colômbia.
Fig.3 Guardado  pela população local esta é a imagem de devoção de São Luiz Beltrão padroeiro do Aldeamento. É uma figura em estilo barroco em talha de um só bloco de madeira período sugerido de sua confecção seria século XVIII, mas é necessário avaliação de profissionais da História da Arte.

São Vicente Ferrer o parente de Santo de São Luiz Beltrão

São Vicente Ferrer nasceu em Valência, na Espanha, em 1350. Era filho de Guilherme Ferrer e Constância Miguel. De família nobre, Vicente foi o quarto filho do casal. Seu irmão, Bonifácio Ferrer, foi Superior dos frades Capuchinhos e realizou importantes missões diplomáticas para o antipapa Bento XIII. Sua vida é um testemunho de que a ciência e a sabedoria não são contrárias à fé, mas sim a complementam.
Depois de sua profissão religiosa, que aconteceu em 1368, até chegar o tempo de ele ser ordenado padre, em 1374, São Vicente ensinava filosofia e estudava teologia nas regiões de Lérida, Tolosa e Barcelona. Com um conhecimento da exegese bíblica que chegava à perfeição e, igualmente, possuindo um profundo conhecimento da língua hebraica, ele voltou para Valência em 1373. Lá, lecionou teologia, fez inúmeras pregações, escreveu suas obras e aconselhou aos que o procuravam. São Vicente ensinou teologia na escola que funcionava na Catedral de Valência, de 1385 a 1390. Ele foi convidado para ser o confessor apostólico de Bento XIII, que era, na verdade, um antipapa, na cidade de Avignon, França. Vicente não aceitou o cargo e ainda recusou a chance de se tornar cardeal, percebendo que Bento XIII não tinha realmente a autoridade papal vinda dos apóstolos.
São Vicente adoeceu e por pouco não morreu durante a invasão de Avignon, mas ele se recuperou milagrosamente. A história diz que ele teve uma visão de Jesus Cristo junto com São Francisco de Assis e São Domingos. Na bendita visão ele teria sido orientado a pregar o Evangelho fervorosamente. Porém, ele encontrou a resistência do antipapa que relutava em dar a sua permissão para Vicente deixar Avignon. Em 1389, Bento XIII finalmente deu a sua permissão e Vicente saiu em pregação por todas as regiões da Europa do Ocidente. Com muita sabedoria e eloquência ele atraia multidões, ficando bem conhecido no meio cristão.
Ao ouvirem sua voz, as inimizades públicas cessavam, reconciliando-se. Os pecadores sentiam-se movidos ao arrependimento e as pessoas sedentas de perfeição o seguiam. Às vezes mais de 15.000 pessoas se juntavam para ouvi-lo, o que naquela época, era coisa difícil de acontecer. Contemporâneos de São Vicente Ferrer relatam que, mesmo quem não falava sua língua podia entendê-lo.
O milagre de São Vicente Ferrer
São Vicente Ferrer foi um dos santos que mais trabalhou pela conversão dos judeus e dos muçulmanos. E ele fez isso com todo o seu coração. Alguns historiadores chegam a  afirmar que converteu cerca de 25.000 judeus e mais de 8.000 islamitas. Por ocasião do Domingo de Ramos de 1407, estando ele em pregação na igreja de Ecija, Espanha, uma mulher judia, cheia de riquezas e poder, ia assistir os sermões de São Vicente por mera curiosidade. Ela fazia questão de manifestar sarcasmos e desprezo pelas palavras de São Vicente Ferrer. Por fim, ela atravessou no meio do povo para ir embora. Estava claramente cheia de raiva e não se continha. Todos os presentes ficaram indignados. Mas São Vicente disse bem alto: "Deixai-a sair, porém afastai-vos do pórtico". O povo obedeceu. Quando a mulher passou sob o pórtico, este caiu sobre ela, e ela faleceu. Ela permaneceu por vários minutos ali, morta, sem batimentos cardíacos confirmados por várias testemunhas. São Vicente caminhou até o corpo da mulher e ordenou com voz forte e poderosa: "Mulher, em nome de Jesus Cristo, volte à vida!" E a mulher ressuscitou. Todos ficaram maravilhados. Após o milagre, a senhora se converteu ao catolicismo. Todos os anos, em Ecija, uma procissão comemorava o extraordinário fato da morte e conversão da mulher judia.

Fig. 4 Iconografia Medieval de São Vicente Ferrer, santo da Ordem dos Frades Dominicanos.

São Vicente e organização do Poder da Igreja
São Vicente Ferrer foi nomeado como juiz para escolher o sucessor da coroa de Aragon. Ferdinando I foi coroado rei. Seu grande feito foi por fim ao Cisma que dividia a Igreja desde o ano de 1378. Vicente pediu publicamente para que o papa Bento XIII renunciasse ao pontificado para o bem geral da Igreja Católica. Ele pregou no Concílio de Constance, em 1418, para a reconciliação da Igreja.
Vicente Ferrer faleceu em Vannes Bretanha, em 1419, e foi canonizado na igreja dominicana de Santa Maria Sopra Minerva, em Roma, a 3 de Junho de 1455, pelo Papa Callistus III. Porém, sua festa celebrada no dia 6 de abril só foi autorizada pelo Papa Pio II, em 1458.
Assim em nossa cidade de Resende pela Lei Provincial n.º 287, de 19-05-1843 do período do Império do Brasil e depois por Decretos Estaduais n.º s 1, de 08-05-1892 e 1-A, de 03-06-1892 na República, é criado o distrito de São Vicente Ferrer e anexado à vila Arraial de Campo Alegre. Pelo Decreto-lei Estadual n.º 641, de 15-12-1938, o distrito de Santana dos Tocos passou a denominar-se Salto e São Vicente Ferrer a denominar-se Vila da Fumaça, em homenagem à cachoeira existente no local. O mais importante é que estes padroeiros nunca foram esquecidos eles são alvos de culto e veneração e portanto suas imagens além de patrimônio histórico cultural são representantes legítimos de arte sacra.

Fig. 5 Missa na Igreja de São Vicente Ferrer padroeiro da Vila. Fonte: Facebook Vila da Fumaça-Resende-RJ

Bibliografia
ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses Indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2003.
LEMOS, Marcelo Sant’ana. O índio virou pó de café? (A resistência dos índios Coroados de Valença frente à expansão cafeeira no Vale do Paraíba. 1788-1836). Rio de Janeiro: UERJ, 2004. Dissertação de mestrado.
Oliveira, Enio Sebastião Cardoso, O aldeamento de São Luís Beltrão : os índios Puris e a política
indigenista de 1788 a 1808 em Campo Alegre da Paraíba Nova  – Vassouras, 2012.
SILVA, Joaquim Norberto de Souza e Silva. “Memória Histórica e Documentada das Aldeias de Índios do Rio de Janeiro”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Rio de Janeiro.v. 62, 3ª série, n.14, 1854. p. 242-249.
Hagiografia : Santos y Santas de la Orden - http://www.dominicos.org/grandes-figuras/santos



[1] Vice-Presidente da Academia Resendense de História, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, do Instituto de Estudos Vale Paraibanos. Mestre em História Social (USS),Economista professor universitário.  Gestor do blog Resende História do Vale do Paraíba :http://paraibanova.blogspot.com.br/

2 comentários:

  1. boa tarde, pesquiso a genealogia de minha familia e procuro informaçoes sobre antepassados nascidos no periodo de 1800 a 1900 na antiga fazenda sao vicente de ferrer, existe na paroquia algum registro historico dessa epoca ou em algum outro local de preservaçao historica de sao vicente ferrer/fumaça?
    grato
    flavio arjones flavioarjones@gmail.com

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  2. Boa noite,
    Também estou procurando documentos de antepassados que se casaram na Igreja Matriz de São Vicente Ferrer. Há livros de registros na igreja?
    Monica

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